quarta-feira, 28 de julho de 2010

Volume I - bloco 3 (1/3)




[pausa]

As fileiras de carretas de madeira empurrada uma na outra no pátio, deixando para trás as tábuas rangentes da escada, abrimos a porta com vidros, onde arranhões se ressaltavam na gordurosa, parda-escurecida pintura, a caixa de correios feita de arqueada lata escura, de branco arrebentado esmalte do oval brasão-do-nome, do cartão manchado firmemente pregado, impresso com o adornado texto do leitor-assinante do Observador Popular [Völkischer Beobachter, jornal do NSDAP, o partido nazista] e entramos na cozinha. Na luz esfumaçada, que caía através das janelas, pode-se reconhecer o fogão e a pia, e à mesa, sob o verde amparo-de-porcelana da lâmpada do teto, altiva na cadeira com encosto vertical, a mãe de Coppi. Ela tinha retornado de seu trabalho de meia-jornada nas oficinas da Telefunken lá na marginal Hallensche [Hallesches Ufer], agora descalçado os sapatos e meias, e depois mergulhado os pés numa bacia com água quente. De início, apenas turvo a perceber, com flutuantes contornos de uma janela dividida em seis retângulos, a mostrar-se os detalhes do formato, quando nós nos sentamos à mesa brilhante-polida. Da base do cabelo grisalho, atado atrás num nó, corria delgadas dobras em forma de leque sobre a testa até a raiz do nariz, entre densas sobrancelhas. O nariz era arqueado, profundas marcas se mostram das narinas aos cantos da boca até o queixo, os lábios eram estreitos, umedecidos com a ponta da língua, com o dorso da mão ela esfrega as fechadas pálpebras com pigmentos amarelados. Seu delgado pescoço crescia rígido entre os ombros inclinados, ela trajava um vestido azul-claro, com estrias longitudinais em azul-escuro e um colar com um broche, cujas pérolas-de-vidro se refletiam no espelho da janela na parede oposta. Também nas pupilas de seus olhos, que já se abriram, brilhou o formato da janela. As metades da janela estavam firmemente engatadas, que a fechadura com a chave ainda girada, a toalha de mesa se destacava em argolas. Da parede jorrava um débil verde no cômodo, além do espelho não havia mais que um calendário e um relógio, numa redonda moldura branca. Uma porta levava a um quarto, no qual encontrava-se a cama dos pais de Coppi, enquanto Coppi dormia no sofá da cozinha, entre o baú e a baixa estante de livros, de todo semelhante as instalações em nosso apartamento na rua Pflugstraße, quando eu lá morava com meus pais. A dimensão da cozinha, que lentamente se ensombreia, enquanto o filamento da lâmpada ficava mais nítido, formava uma conformidade que a nós, à mesa sentados, desejava impor um sentimento de uma dominante derrota. Além deste cubículo, detrás de muros esmigalhados, das grades das escadas, do poço do pátio, só havia hostilidade, aqui e ali a prevalecer semelhantes pequenos espaços gradeados, que sempre ficam mais raros, sempre mais difícil de achar ou logo não mais seriam encontrados. Cada palavra devia expressar a impotência, no acerto de cada tom, ao dizer aquelas palavras mais raras para nós, nos últimos quatros anos, Perseverança, Confiança e Vitalidade. A sofrida catástrofe para superar era esta a condição para tudo o que se realizava, seja sozinho ou junto daqueles de mesma disposição. Geralmente fazia-se tal consolidação de forma imperceptível, rotineira até aqui, bastavam apenas alguns poucos momentos de silêncio. Mesmo em nosso diálogo então cotidiano, quando reunidos, sempre era sobrecarregado pela proximidade de um perigo fatal. Todos, o que do último ano tínhamos adquirido uma noção, permanecia o respeito por esta relação entre necessário isolamento e máxima investigação atenta num terreno adversário, cujas fronteiras se expandem continuamente. Que cansaço, exaustão às vezes fora do controle experimentamos, que não queríamos aceitar, e explicávamos a fraqueza física e do ânimo em relação à fisiologia. Indo longe, seguíamos além, esperávamos, até ter acabado, ao pensarmos nas prisões, nos brejos, junto aos campos-de-tortura cercados por arame-farpado, e encontravamo-nos depois de um instante novamente em nosso contexto, no qual apesar de aparente desesperança, cedia determinado ponto-de-apoio e uma direção. Depois da falha da coalisão [de Comunistas e Social-Democratas], depois da supressão das nossas organizações, nós tínhamos, no cômodo verde a escurecer, uma série de coletivas sessões, que eram inalteráveis e nas quais foram transmitidas para nós instruções e notícias vindas de fora. Era a densidade dentro da cozinha, cuja janela Coppi então cobria com um papel escurecido, também bem hermético, assim concedia logo perspectivas, às quais para nós ligadas às ações, que levava a determinados lugares geográficos em bruscas discussões e discordâncias. Primeiro, fugíamos da vigilância a seguir-nos passo a passo, para poder debater as diretivas, que nos davam segurança e possibilitava trabalho contínuo. Funcionários diretores dos partidos políticos proibidos, que haviam conseguido escapar da prisão e da morte, tinham sido levados para fora dos limites de suas bases, às vezes eles voltavam ao país, e em pequenos grupos conspiratórios em movimento, camuflados em associações de jogadores de boliche, cantores, esportistas, jardineiros, seguíamos em geral apenas em dupla, ou em trio, ou grupo de quatro, originados como medidas de resistência nos amplos arredores. Eram frequentes as trocas dos nomes dos lugares, onde aconteciam os encontros. Assim foram os debates em Moscou, no outono de mil novecentos e trinta e cinco, sobre a estrutura das atividades ilegais e sobre a necessidade de se conseguir uma unidade dos partidos de trabalhadores, que perdera-se em Bruxelas, cidade onde se realizara, no início do século, o Congresso dos social-democratas russos, no originalmente denominado Dia da Unificação do Partido, que, no entanto, levou à divisão em Bolcheviques ['maioria'] e Mencheviques ['minoria']. Na alusão à este ponto de partida histórico ficou a Ironia dialética, então desde julho de mil novecentos e três não permaneceu apenas a fratura interna do Partido russo, mas também teve consequências nas oposições nas opiniões dos social-democratas alemães e russos, finalmente a provocar a divisão nas Segunda e Terceira Internacionais. A menção à Bruxelas lembrou-nos cada armazém de grão, no calor abafado, afligidos por pulgas e ratos, sobre tábuas ajuntados, a rastejarem, os emigrados revolucionários russos, sob a liderança de Lênin, a fundamentar as estratégias deles. Relembradas foram a tenacidade e a determinação e também a irreconciliação, com que as opiniões foram conduzidas, porém marcada a escolha dos nomes dos lugares ao mesmo tempo em que faziam esforço para reencontrar um perdido ponto-de-vista em comum. As decorridas três décadas foram um tempo reduzido, dessa divisão do Proletariado, mas nos grandes Partidos o resultado de tal desunião reforçou a ampla fragmentação a favorecer um desastre, sempre à espreita, pronto a se aproveitar para atacar a cada sinal de fraqueza e para suprimir em toda a extensão todas as tentativas para uma renovação. Pois até o limite seguiu a inimizade fatal em luta entre os partidos dos trabalhadores, com a destruição da solidariedade, o efeito do Fraktionalismus [facções dentro da Esquerda, falta de Unidade do Partido], ao que todos estariam comovidos pela lembrança de Bruxelas, tanto maior parecia a nós a coragem na presente incompatibilidade das linhas políticas, a iniciar a fonte de controvérsias e com isso levar a um maior grau de dificuldade das nossas atuações. As discussões sobre a unidade de ação entre Comunistas e Social-Democratas se situavam quanto às decisões básicas para uma orientação da política para a construção de Frentes Populares, que algumas semanas antes, foi acertada para o Sétimo Congresso Mundial do Komintern [Internacional Comunista]. Na falta de informações sobre os detalhes das polêmicas tínhamos examinado as gravuras dos prédios da Internacional Comunista, para ter ao menos aquele lugar diante dos olhos, onde de tais debates dependiam os nossos destinos. Naquele tempo mantinha a casa simétrica, cheia de janelas, bem próxima ao portão Trojckije até o Cremlin, um brilho rosado sob as pequenas nuvens desfeitas no céu crepuscular, e pensávamos também nas cúpulas douradas, subindo dos muros vermelhos, com pontas abertas em forma de flor-de-lis, e do outro lado, diante da enorme praça aberta, o compacto cubo, a negra Kaaba [referência ao santuário islâmico ], contendo o caixão envidraçado, elevado [o corpo de Lênin]. Tentamos adequar ao modelo os nossos pequenos distritos e conduzir nossa prática isolada em concordância com as diretivas, com seus lemas, cujos múltiplos temas dos delegados eram coletados, comparados, revisados, refinados e fortalecidos em debate. Desde a nossa infância os incessantes esforços para a construção de uma Frente de Unidade, porém estávamos meia década vivendo dentro do poder fascista, e os esforços emperrados, obstruídos, rumo a uma solução, a insistir na superação dos mesmos erros. As notícias escassas, que a nós, os de dezoito anos, chegavam, na clandestinidade, eram conhecidas nas conversas, sempre de novo resolvidas, testadas, conferidas e, na sequência, examinadas. Isto era para nós uma condição básica, que os eventos em grande escala nunca viesse a ser para alguém algo incompreensível, inacessível, que deixaríamos examinar nosso isolamento com desamparo. Estávamos certos do fato de que lá fora algo existe e se fortalecia e para a reação estaria preparada. E conforme mais difícil se tornasse, no interior dos restantes grupos ilegais, incorporavam contato uns com os outros, a prestarem ajuda mútua e a informar uns aos outros sobre os planos, tão considerável era cada mínimo detalhe, a permitir tirar conclusões sobre a situação, ao decorrer das ações fora do nosso distrito. Mas desde um ano tínhamos então também, previsto um maior controle, que autorizava mais raramente movimentos em maior extensão nas vizinhanças, tais mudanças articuladas dentro do Partido soviético, que nos infligiram cuidados adicionais, e que, deixavam ocultos seus motivos profundos, a exigir de nós uma aguçada atenção contra todos aqueles nos quais tínhamos confiado. Eu mesmo que, logo depois do domínio fascista, tinha começado a trabalhar, foram anuladas as condições que permitiram a atividade política de nossos pais. Para eles além dos empregos haviam interesses coletivos de engajamento cotidiano, que se prolongava na pluralidade das afiliações do Partido e sobre o conflito ideológico. Somente o preconceito do antagonismo entre as gerações ficou compensado, mais forte ainda que antes havia a única linha-de-separação, que havia definido a luta-de-classes, e esta decorrida através de toda a população mais velha. Foi apenas por isso que então se perguntava de que lado do front [frente de combate] se estava, quando se mantinha em silencioso consentimento nas ações coletivas. Nosso desenvolvimento pessoal ocorria em forçada restrição, um movimento de liberdade cultural era impensável, era o que aprendíamos, a poder ser conquistado apenas em caminhos ocultos. Mil novecentos e trinta e sete, em sinais paradoxais de luta de um amplo e uniforme front e da desconfiança interna, da desagregação na própria fileira, assim coagidos, à cada impulso que recebíamos, depois de avaliação própria, com frequência ao modo visionário de interpretar e logo conceder uma forma idealista. O que tínhamos ouvido sobre a Espanha, sobre o movimento revolucionário na China, sobre os distúrbios e revoltas no sudeste asiático, na África, na América Latina, ou sobre as greves em massa, as coligações dos sindicatos e partidos trabalhistas na França, deixava-nos a conjecturar que o pensamento rumo a vitória sobre as forças reacionárias do mundo não era tão equivocada como se queria retratar nas frases gritadas, os slogans da Gleichschaltung [a conformidade forçada sob o regime nazista] em nosso país. Porém se tentávamos, nas operações e organizações, descobrir sinais de mudanças, de insubordinação, de sabotagem, apenas encontrávamos resignada adaptação, vigilância muda, e nossas Utopias não poderiam enganar-nos tanto, que muitos dos quais, que deixamos no frio ainda em janeiro de mil novecentos e trinta e três, pobremente trajados, que indo para a casa de Liebknecht [líder comunista] viram já a marchar com as bandeiras, nas quais o vermelho das cruzadas ferramentas de trabalho foram substituídas pelo anguloso símbolo da destruição [a foice e o martelo substituídos pela suástica].
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trad. LdeM

domingo, 27 de junho de 2010

Vol. I / conclusão do bloco 2


.........Talvez fosse o movimento do trânsito ao redor que fizesse a fala de Heilmann ficar confusa, porém ele mantinha-se firme adiante, que justamente isso que Coppi tinha definido enquanto ilusão, enquanto produto de crescente-selvagem fantasia, para ele mantinha-se chão firme, então o pragmático, que estava ligado à regulações, seja para nós que já conhecemos o bastante, nós saberíamos que a obediência, a confiança enfraquecem sob uma condução superior sobre a nossa própria opinião, nossa faculdade de discernimento escapa à força, a promover inferioridade e impotência. Para nós é válido, ele disse, derrotar os padrões desde antes recebidos. Porém as palavras dele, que no ruído se perdiam, chocavam-se contra faces desconhecidas, se ajustavam a algum tempo novamente aos passos, que Hércules tinha seguido, desde o privilégio de alianças com o Olimpo até ficar ao lado dos terrestres, e aos poucos então nós poderíamos acompanhar as considerações, qual tipo de mudança Hércules realizou, quais erros ele enfrentou e, talvez, quais descobertas ele conquistou em suas viagens. A direção, que ele assim seguiu, estava desde o início predestinada, então contra as intrigas dos poderes ele se revoltou logo desde criança. Hera, a irmã e esposa de Zeus, por ciúmes, tinha apertado o ventre de Alcmena, deitada em contrações, engravidada pelo deus-pai, pois assim atrasaria o nascimento de Hércules. Aqui demonstra-se, disse Heilmann, a ruptura tornou-se a mais irreconciliável controvérsia, desde o ventre foi modelada a revolta contra a existência, e foi testada com intrigas e astúcias, ao receber o tradicional. Por aqueles dias, Zeus havia anunciado festivo aos Grandes [Deuses] reunidos a vinda de um novo soberano para o mundo, um que ele havia deveras prometido. O que ele queria dizer com isso era, como de hábito, aos Mortais insondável, à rainha do Céu porém pressentida catástrofe, então as conspirações da esposa dele foram suficientemente conhecidas por ele, e aqui se mostravam claramente em parte, de súbita inspiração, a formar-se a partir do desejo divinal, o que poderia abalar totalmente as veneráveis fundações. A partir de elevadas esferas estava deslocado o evento acima do plano terrestre. Mais auspicioso deveria nascer Anfitrião [Anfitrion, seria esposo de Alcmena], nobre de Tebas, descendente de Perseu. Hera, com passos aéreos, apressou-se aos aposentos de um outro eminente, também parente de Perseu, Estênelo, cuja esposa estava grávida, no sétimo mês, e com bebida ardente provocou este nascer prematuro, assim que, em lugar de Hércules, na hora assinalada, foi Euristeu empurrado para a vida. Superado, ao chegar atrasado, ele, a quem Zeus tinha escolhido para grandes ações, junto ao preferido de Hera, e Hércules era bem-formado, agarrou e golpeou o outro nos olhos, enquanto este ficava inerte e resignado, a ficar descorado. Nós devemos ver, disse Heilmann, o que surge a partir dessa rivalidade, no decorrer da qual o deformado chegou ao poder e o bem-formado e forte deveria suportar todas pragas e fardos. Invejosa, Hera perseguiu o crescimento do saudável, ao qual o berço comum logo não era mais suficiente, e ela seguiu até ele, em sandálias de ouro, que não marcavam o chão, banhada em ambrosia, com pesados pingentes nas orelhas e nos braços formosos duas serpentes, que a vida do rival deviam extinguir. A criança estendeu a ela, que se inclinara entre os véus contra mosquitos, as mãos como a uma carícia de afeto, ao contrário, vomitou-lhe na face e estrangulou as víboras. Enquanto Euristeu ainda débil gritava em sua almofada e a ama alimentava-o com cuidado, já Hércules cuidava do rebanho de ovelhas da fazenda de seus pais e alcançou junto ao povo da região uma primeira notoriedade, lá ele não apenas rasgou a garganta dos lobos invasores, mas também ao leão considerado invencível, que há muito tempo atacava nas vizinhanças do rebanho. Euristeu, seu primo, recitava, com voz lastimosa, poemas, e tocava desafinado a lira, no entanto, Hércules puxou de Linos, o professor que queria persuadir o aluno que a única liberdade a ser concedida seria a liberdade da Arte, o chapéu firme sobre os olhos, a quebrar-lhe o osso do nariz, e quando o mestre afirmou além disso, que a Arte seria para todos os tempos a apreciar independente das próprias confusões, ele colocou o mestre de cabeça-para-baixo dentro de uma fossa de estrume e afogou-o, para provar que a bela espiritualidade desarmada ao mais simples poder não pode resistir. As filhas [as Musas] de Mnemosine [Deusa da Memória], elas também do mesmo parentesco [filhas de Zeus], ele tinha logo outrora surrado, quando estas desejavam atrever-se. Sozinho, decidido em todas as questões da Dança, da Música, do Canto e da Poesia, ele aprendeu as canções, aquelas cantadas nas ruas, e as estridentes flautas de caniço, as ressoantes gaitas de foles, o retumbar dos tambores nas tabernas. Junto em andanças nos subúrbios detestados pelas Musas ele aprendeu a reconhecer a miséria, que havia nos barracos e porões de casas, e ele estava sempre meio aos servos e criadas, o humilde servidor, os diaristas, os mascates, que esfomeados e sugados foram por impostos tributos, enquanto acima na fartura da cidade havia carne, verduras e frutas, como também tonéis de vinho, e as arcas-do-tesouro, que estavam sempre cheias. Ele não queria acreditar que o terror, quando de seu exílio da sua cidade natal, Tebas, e que seria culpa do místico príncipe Ergino [rei de Orcômeno, que cobrava tributos dos tebanos], que ninguém tinha ainda visto, então por que arrotava e vomitava Creonte, o rei [de Tebas], com toda a sua corte, de tanta fartura, por que vestem as damas da nobreza a cada dia uma nova roupa, se havia sobre eles uma tirania, a exigir constantes tributos. A demonstrar que os de sangue nobre estavam isolados e sozinhos, que com falsa ilusão mantinha abaixo a massa ignorante de trabalhadores, enquanto a nobreza subornava e comprava os representantes e mestres, coagidos para a patifaria por ameaça de inauditos castigos, Hércules então se dirigiu à ilha do corte do mármore e buscou de lá uma comitiva de impor respeito. Aos escravos, os que tossiam lá sentados nas gamelas, os pulmões cheios de pó de pedra, não precisou ele muito esclarecer. Com estilhas de mármore na barba, com sílex entre os dentes, armados com suas serras e alavancas, eles o acompanharam, e aos vigilantes antes de plantão, arrebatados, ao assombro à respeito da questão, por que isto não havia acontecido antes. Com os libertados Hércules marchou em Tebas e espalhou a informação de que ele havia esquartejado Ergino e lançado aos corvos para ser devorado. Ainda antes que ele invadisse a fortaleza do rei [Creonte], na cidade ressoavam cantigas, cotidianas, rimadas com precisão, em melodias compostas, daquelas que ficam registradas nos ouvidos, de como fragmentou o inimigo mortal e espalhou seus membros em todas as direções cardeais e de como Tebas foi finalmente libertada. Aí nem Creonte, ainda com seus astutos filósofos e sacerdotes, o monstro que sobre eles tinha reinado, poderiam mostrar, antes ser celebrada a Hércules a alta posição, e Creonte deu a ele por casamento a filha Mégara, distribuiu para o povo comidas e bebidas, e durante três dias celebraram em festas e abriram os portões de alguns depósitos de trabalho. O rei e todos os dignitários vieram para ouvir Hércules, que ele seja o melhor, o mais forte, que realmente a ele o status seria garantido, que o débil e inferior Euristeu que a ele tinha roubado, e ao mesmo tempo, porém eles manobravam diante dele nascido no trono de Micenas, de onde ele enviou tropas pesadamente armadas sobre a terra, a massacrar os camponeses revoltados e a capturar os escravos fugitivos. Este foi a época da demência de Hércules, disse Heilmann, enquanto nos encontramos no pavilhão do mercado central, junto aos caminhões carregados até encima de caixas e engradados. Ele [Hércules] não notou, fascinado pelo charme de Mégara, que a guarda de segurança dele foi morta e enterrada, nenhum aviso de alerta atravessou os muros do castelo até ele, e quando ele pela primeira vez, na ocasião, em vestes de seda, atravessou os portões para a cidade, na qual, como ele julgava, a época da prosperidade havia chegado, ele encontrou apenas mendigos e crianças furiosas, e as pedras atiradas contra ele, e alguns artesãos ao passarem transmutaram-se, quando ele os chamou, dele se afastaram. Um único momento de desatenção pôde anular todo o alcançado, e então passaram-se meses, talvez até mesmo anos, os quais ele tinha gastado inativo, contudo, tinham sido usados pelo adversário, melhor armado, quando antes havia o Estado, e com isso, não deveriam se repetir os ataques-surpresa. Também os autores da Corte tinha já aprendido e, na dialética das ruas, criado uma poesia de escárnio, cujo tema era Hércules enganando os pobre, com grande discurso dele, a vã-glória dele, enquanto Euristeu, o Sábio, o Escolhido da Graça dos Altos Deuses, em muitos versos fizera votos de seu amor paternal ao povo. Às pessoas, das quais se diz o que elas sempre precisam, o que elas acreditam, o que elas podem venerar, estas foram para os espaços abertos onde se exibiam os desfiles, como se fosse uma festa para os olhos, com os carros de batalha, elmos com penachos, estandartes, e os discursos em alta voz a darem uma expressão de esperança, de que os conspiradores, que colocaram no caminho aquelas renovações, haviam sido removidos, e o Regente deseja que os cansados e famintos saibam que ele se preocupa com eles e deles se compadece, e com silente assombro os ouvintes descobririam que o que foi imposto sobre eles era uma situação de emergência. Como poderia Hércules ter lido com isso, nós nos perguntamos, junto ao canal, encostados ao fuliginoso parapeito-de-ferro, com arrebites salientes, branco-manchado de merda das aves, que antes estiveram lá, enquanto a ele o Iniciado a seguir adiante, tendo acreditado que uma ação isolada poderia ser suficiente como um exemplo, como uma revolução a ser alcançada. Ele uivou de ódio, disse Heilmann, ele ficou furioso em seus aposentos, menso por ter sido derrubado, pois ele sabia resistir, mas antes porque por causa dos inumeráveis outros, os que eram mais fracos do que ele, e sem influência, tinham sido deixados no sofrimento. Antes que ele insistisse na luta a empunhar as lanças, que a ele rodeavam, assassinou a esposa e também as crianças, que a mulher lhe dera, todos, a ele ligados, a eliminar todo parentesco, sem qualquer reconciliação, e nós até entendemos a fúria dele, quando desfilam marchando ruidosa uma tropa de sinistros coveiros, com caveira nos quepes [as tropas SS]. Porém, nós não entendemos porque ele, então, se enrolou num saco, coberto de cinzas, a seguir rumo a Micenas, para se submeter a Euristeu. Ele [Hércules] se humilhou, em desculpas, disse Heilmann, ele aceitou todo tipo de humilhação sobre si mesmo, pois era necessário que ele suportasse. Ao contrário de sofrer em câmaras de torturas, que já estavam prontas para ele, antes oferecera seus serviços aos monarcas e seguiu ao lado destes, que se vangloriavam de serem aliados, rumo a uma série de trabalhos cheios de perigo [os doze Trabalhos de Hércules]. Ao perceber suas falhas, nos mais variados lugares do país, ele voltava-se para um longo plano, com o qual esperava vencer este sistema do ressentimento, da dominação e do assassínio, mantido por Euristeu, com a ajuda de Hera. De início, não foi evidente o que os seus Trabalhos pretendiam, e é uma incerteza que se tem nas Sagas, sobre ele tão propagadas, preservadas até os dias atuais. Os eruditos deram, com reduzidos informes conhecidos, que Hércules, diante de Euristeu, colocara a sua vida em jogo ao redor do país, e depois em distantes regiões, a remover focos de revoltas e hostilidades. Os fabulistas nos mercados enfeitam com detalhes os Trabalhos do Enviado. Acima, a nordeste, em Nemeia, ele havia matado um leão, quando o agarrou por trás, a perfurar suas narinas com os dedos polegares e indicadores, enquanto o punho direito golpeava a boca aberta até o fundo da goela. Com a pele da besta, ele fez um manto, cujas pernas se cruzavam no peito, a bocarra aberta sobre a cabeça, e ele seguiu além , rumo ao sul, para o pântano de Lerna, onde habita a Hidra de nove cabeças. Assim soube-se que no réptil, ao ter a cabeça cortada, cresciam duas outras novamente, tal foram narradas no Basaren [local de Berlim, com basares e feira pública] logo dispersas sobre Hércules, das quais nos valemos, com sua grande foice escura, como se diz, e seguiu em frente, como se fosse apenas uma jibóia. Ele não seria Hércules, dizem, se ele findasse um plano sem vitória. Com um tronco em brasa ele queima, após cada golpe, no toco do pescoço da Hidra, e assim impede a regeneração. Os ouvintes meneiam a cabeça, incrédulos, e fazem estalos com a língua. Porém quando Hércules então dos montes Erímanto veio com um javali capturado, um imenso animal a espumar de fúria, levantado seguro pelas patas traseiras, a adentrar o palácio e a sala do trono, onde o rei enviado dos Deuses tremia de medo dentro de um vaso de argila, foi mesmo necessária uma boa gargalhada, e muito se começou a antecipar ao que Hércules pretendia. Desde então aumentou a fama dele novamente para aqueles que já o tinham dado por esquecido, e é dito que ele seguiu para o Lago de Estínfalo, para eliminar as aves monstruosas, que eram uma peste naquela região, lá aninhadas acima das plantações, assim nas narrativas das crianças, enquanto ele atirava no ar, com movimentos rápidos-fulminantes, as flechas agudas, logo triunfante sobre os montes de vítimas cheias de penas aniquiladas. Com efeito, muitos eram os estragos que as aves causavam, invadindo os rebanhos, mas tudo veio em vantagem dos senhores da Corte, que faziam tudo para rivalizar com Hércules, ao explorar as regiões além do arquipélago [de Micenas]. Logo irrompeu uma época de navegações marítimas, e descobertas revolucionárias. Enquanto dos Aristocratas seus pensadores a fazerem sempre grande esforço para descreverem as vantagens dos distantes Trabalhos de Hércules, do que falavam tanto quanto os que nada tinham, os sem-propriedades. Que novidade traziam sobre Hércules, perguntavam sempre, e assim orgulhosos dele, porque ele deixou de joelhos o touro que espirra fogo, amansou os cavalos comedores-de-carne-humana, derrubou o Gigante de três cabeças e ganhou a amizade de Atlas, e assim crescia a rixa com Euristeu, que , com os sussurros de Hera no ouvido, sempre tentava novamente perseguir o herói com os infortúnios, para fazê-lo fracassar. Foi na época, disseram os trabalhadores, que à noite no covil sentados juntos, que ele retorna, coisa que ninguém mais duvida, até Euristeu a deliberar junto aos seus latifundiários e generais, enquanto ele [Hércules] atuava junto às Amazonas, ou qual a razão dos pilares à beira do Oceano [os montes no Estreito de Gibraltar a ligar o Mar Mediterrâneo ao Oceano Atlântico], enquanto ele se demorava nos Jardins das Hespérides [à Oeste, rumo ao Poente]. Ele devia, foi o que respondeu, o mundo todo medir com os seus passos, determinar ao redor, onde havia supremacia hostil ou possibilidades para o livre desenvolvimento. No entanto, os trabalhadores se preparavam desde dias antes, quando ele novamente estivesse entre eles. Aos abusos dos mercenários eles mantiveram calma e sangue-frio. Eles juntaram piche em adegas comuns, para, no momento apropriado, poderem colocar fogo nos arsenais. Quando deviam construir novos muros ao redor da fortaleza do rei, eles cuidaram então em incluir passagens para uma marcha ligeira. Eles sabiam que Euristeu, insone, percorria seus luxuosos salões e lá fora dos muros ouvia o sussurrar da iminente chegada de Hércules. Agora era muito tarde para os superiores lamentarem a libertação de Hércules, enquanto ordenavam na base do chicote uma maior vigilância dos soldados, ou a distribuírem nas cidades as esmolas do Governo. O inquietar que se espalha não era de se negar por muito tempo, a segurança das elites privilegiadas foi minada, nenhuma prece ou concentrações de tropas podia mais coagir o povo à reverência. Ainda mais os torturadores se enfureceram, e as masmorras se encheram com estes, que arbitrariamente da inquietação eram suspeitos. Porém, onde os verdadeiros presos se sentaram, revelaram-se certa manhã, ao alvorecer, quando Hércules entrou em Tebas, em companhia de um cão gigantesco, junto do qual todos em gritaria, em suas casas grandes e sólidas rastejaram para debaixo das camas, enquanto que os que passam as noites nos casebres ou sob céu aberto, ficaram atentos e se dirigiram até Hércules, quando ele chegava ao som de alegre trombone. Desde antes, quando ao guarda infernal [o cão Cérbero] dera ordem para ser inofensivo, Hércules em ataque dentro da Estrutura-do-Mundo, até cantando, o puxara com facilidade para fora das profundezas terrestres, e o levou até a praça do mercado, onde os soldados tinham removido os balcões mais altos, e ele [Hércules] mostrou aos servos e as servas, aos trabalhadores-diaristas e artesãos, aos agricultores e pescadores que se ajuntavam, e a infantaria a descansar. Ali Cérbero, aos miseráveis vira-latas, que, em consideração a numerosa multidão, a cauda encolheu e começou a choramingar. Em uma gaiola, ele [Hércules] tinha trazido uma águia, também este uma proeminência no sistema de coerção e ameaça, ela que foi vista antes a atormentar os desafiadores, os audazes e os auto-conscientes, a devorar o fígado dos rebeldes, de novo e de novo, e estes todos já tinham fim, assim podiam ver os habitantes de Tebas. Eles viram, em quais ressecadas pernas sarnentas o domínio se mantinha por fraudes e mentiras, e quão lamentável a ave, que ainda há pouco imperava orgulhosa sobre Prometeu, agora em suas penas suspensas, o quão embotadas eram as membranas a recobrirem os perigosos olhos relampejantes. Ao fim, também nos sofrimentos para o forjamento do Novo, amplo ali em Tebas, em Micenas, para a Era de Justiça. Porém, os habitantes sucederam-se, isso queremos saber, a propagar tal convencimento, que os dominadores nos palácios, as residências dos patrícios, vieram de joelhos arrastados e a pedirem indulgência, sempre de novo, enquanto [os revolucionários] se mantinham em dúvidas e hesitações, não necessariamente uma traição, mas uma conservada tolerância, que dava oportunidade para uma defesa, e até uma contra-ofensiva [das Elites]. Então não houve paz, disso já tínhamos ouvido, pois começaram guerras piores que antes. Hércules, porém, já não cogitava de ficar do lado dos Escravizados, disse Heilmann, junto ao guinchar das rodas de um bonde [elétrico, trólebus] lotado, vindo da Alexanderplatz [grande praça aberta em Berlim], virou para a rua Rosenhaler, ele tinha elucidado que todos os adágios mágicos que encontrou, e dominado incríveis animais, e a quem qualquer mortal gostaria de ser igual. O tempo dele de aprendizado tinham passado, então tudo o que ele fez, seria marcado por imensas mudanças, e ainda conservava aliados, entre eles estava aquele que suportava a abóbada do Céu [o gigante Atlas]. Porém, disse Heilmann depois de um momento, quando passamos pelos fechados portais suportados pelo encurvado Titã, porém ele [Hércules] sofreria sob medonho tormento, nunca antes sofrido por ninguém, quando tentava arrancar a camisa com o envenenado sangue de Nessos [o Centauro] a queimar sua pele, e não conseguindo, na loucura da dor foi jogar-se numa sempre abrasante pira no alto do monte Oite.
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mais sobre os Trabalhos de Hércules
http://www.mundodosfilosofos.com.br/hercules.htm
sobre o desafio de Prometeu aos Deus
http://www.mundodosfilosofos.com.br/prometeu.htm
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LdeM



[pausa]

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Vol. 1 - bloco 2 ...




[pausa]




Nós nos situamos, disse Coppi, após o cruzamento das praças entre o Museu, a Catedral e o canal do Arsenal [Zeughauskanal], diante do imóvel vigia de uniforme cinza com capacete-de-aço junto ao monumento, nessas prisões ainda é lugar para os que marcham, que, querendo ou não, ficam no caminho, dilacerados, sangrados, sob as coroas com faixas de seda. Heilmann, sob a folhagem das tílias [Unter den Linden], apontou acima para as entronadas poltronas com pés-em-garra, aos batidos livros dos meditativos irmãos Humboldt, ao amplo pátio anterior, na Universidade [Humboldt Universität], a qual ele, se preparou antes e corretamente para obter o Abitur [certificado de estudos secundários], pois desejava dedicar-se ao curso de relações internacionais. Preparado, ele [Heilmann] dominava Inglês e Francês, e na escola noturna, onde nós o conhecemos, ele estava à procura de contatos para aulas do inconveniente idioma russo. O ensino noturno estatal, ponto de encontro para proletários e burgueses renegados [cidadãos não confiáveis], era nosso principal centro de educação, depois que Coppi, com dezesseis anos, abandonou a Escola-Ilha [Schulinsel] Scharfenberg [internato na ilha homônima no Lago Tegel] e depois eu mesmo, um ano mais tarde, pela última vez tinha viajado na barca da terra firme para a área de acampamento no Tegel [Tegelforst]. Aqui foi útil o curso básico sobre os romances de Dostoiévski e Turgueniev, a discutir a situação pré-revolucionária na Rússia, assim como disciplina nacional-econômica deu-nos instrução para as atuações com a economia planificada soviética. A Associação dos médicos socialistas bem como um estipêndio do Partido Comunista, a cuja organização jovem Coppi pertencia, visitamos a escola na ilha de Scharfenberg, na época uma instituição habilitada e prestigiada. Antes de todos, Hodann, médico municipal, Diretor da Secretaria de Saúde em Bezirk Reinickendorf, chefe do Instituto para pesquisas da sexualidade, havia sido, e quem haviam nos aceitado. Estávamos junto a ele nas sessões de perguntas abertas [Fragenabenden] no auditório Ernst Haeckel, onde tratava e atuava, até sua prisão e fuga no ano trinta e três, muitas vezes partilhou de discussões sobre Psicologia, Literatura e Política, regularmente ocorria a cada segunda semana em sua casa na rua Wiesener, em um loteamento em Tempelhof. Coppi era aprendiz ingresso a Siemens, e não conseguiu manter a frequência escolar após a chamada 'tomada de poder' [Machtergreifung] do regime nacional-socialista [nazista], e eu tinha conseguido um emprego como ajudante-de-almoxarifado na Alfa Laval, onde meu pai era chefe de seção de montagem de separatores [Separatoren, centrífugas para separar o creme do leite, invenção de Gustaf de Laval]. Aqui, numa baixa e alongada construção feita de tijolos expostos na rua Heidestraße, entre os terrenos do depósito Lehrter, com suas oficinas, armazéns, pavilhões de locomotivas e trens em manobras, e no tumulto dos barcos-de-carga no canal, que unia o porto Humboldt com o porto Norte, estava eu ocupado com o recebimento de parte do equipamento, que chegava de Hamburg, de Bergedorfer Eisenwerk, e vindo da matiz de Estocolmo, bem como as embalagens das pré-fabricadas centrífugas para as fábricas de laticínios. No fim de mil novecentos e trinta e quatro meus pais tinham decidido retornar para a Tchecoslováquia, o país ao qual pertenciam os nossos passaportes após o Tratado de Versalhes e Trianon, eu mesmo permanecia em meu local de trabalho, apto a continuar à noite o curso para o exame final. Depois da mudança de meus pais, eu tinha o quarto de nosso apartamento na rua Pflugstraße, na vizinhança de Wedding, já alugado para uma família, por isso eu dormia, como antes eu fazia, na cozinha, onde ressoava muito próximo, vindo lá de baixo, o incessante tilintar e apitar das locomotivas da estação Stettiner, a substituir os ruídos do meu trabalho lá em Moabit. Enquanto isso, já sendo montador auxiliar, na primavera de trinta e sete, eu fui demitido por causa de uma redução na empresa, e desde então encontrei-me à procura de uma oportunidade de trabalho, sempre em perigo de ser expulso, ou, em vista de inquérito, solicitar para mim a cidadania alemã, e precisar apresentar-me ao serviço militar, serviço que eu devia também à minha pátria, ainda este outono, pois eu devia aguardar uma ordem de recrutamento da embaixada tchecoslovaca, uma pátria para mim desconhecida. Mas findaram os cursos para a obtenção do Abitur, bem como os estudos em Medicina e Economia, aos quais eu tinha ao mesmo tempo dedicado, provisoriamente, então deviam agora pressionar as obrigações militares, assim eu teria uma missão para mim lá na Espanha. Assim para Coppi e muitos outros, assim faltava para mim uma carreira profissional mais estável no currículo, nossa missão principal percebemos na atividade política, e meu caminho levava-me para fora do país, no qual eu havia crescido. Coppi tinha encontrado seu caminho aqui, ele era um qualificado torneiro mecânico, depois de sua pena na prisão foi forçado, quando desempregado, a vender cadarços, jornais e sorvetes numa banca diante do cinema Moinho Vermelho [Rote Mühle] junto a Estação ferroviária [Bahnhof Halensee], e devia agora, sempre filiado ao ilegal Partido Comunista, juntar-se ao trabalho compulsório, num canteiro de obras de uma estrada fora de Spandaus. Para Heilmann a instrução ainda era regulada. Ele era, depois de seu pai, antes professor na Escola Superior Técnica em Dresden, havia assumido uma posição executiva na Secretaria municipal de Obras Públicas de Berlim, e ingressado na Escola Herder [Herderschule], e morava com os pais na rua Hölderlinstraße, na imediata vizinhança da praça, onde cuspismos, aquela chamada Praça da Chancelaria [Reichkanzlerplatz], quando diante do seu brasão. Não ao pensar nos desfiles da conquista, disse Heilmann, devia o cinzento guarda lá plantado, com joelhos arqueados, o fuzil da mão ao ombro, em pé diante do templo, antes a vigiar os arredores, pois nenhuma ordem de marchar foi dada, e somente deveria merecer a cova aqueles que faziam oposição à Tirania. Rondas, a seguir desvios, junto a multidão da rua Friedrichstraße para dentro dos arcos e bifurcações da passagem, após o panóptico e as vitrines dos pintores da corte, que depois do gosto do Chanceler a sufocante hipocrisia dos êxtases grão-alemães pintados na nudez de extasiados jovens, moças e moços, então na rua Georgestraße, ao longo do viaduto, no trovoar dos trens da estação urbana, de volta para Kupfergraben, acima da ponte ao Palácio Monbijou, nos jardins à margem, após o Chamisso [busto do poeta e botânico], com seu cabelo longo até os ombros, encima do vermelho pedestal de mármore, a Bolsa [de Valores] atrás e ultrapassando, dobrando para o Mercado Hackescher, até a rua Rosenthaler, esquina com Linienstraße, onde vivia a família Coppi no terceiro andar do segundo pátio, revelou-nos Heilmann, aqui e ali também já sugerindo a intenção de Hércules, tendo, desde muito tempo, num caderno de anotações a esboçada representação de uma sociedade futura, na qual foram aperfeiçoadas, após experiências de coerção, fraudes, humilhações e todo tipo de tortura, os ordenamentos habituais, as leis e tabus. Cada inquietação das autoridades, cada submissão, cada obedecer do trabalho, esteja aqui, disse ele, num fôlego, a confusão seja finda, em comum o melhor seja para cada um iguais, haveria voluntarismo e completo equilíbrio, não haveria mais qualquer status, posição social, nenhuma porta fechada, atrás das quais decisões secretadas fossem acertadas, tudo encontrasse então na opinião pública, sempre permitindo uma observação e controle. Aqui, onde cada manobra, cada ordem coletiva, nos quais os participantes deviam eles mesmos determinar e tudo o que criassem pertenceria a todos eles, onde cada qual poderia se educar sobre as próprias necessidades, e deveria a auto-consciência, o orgulho e a diversão tornar-se uma marca. Igual em forma, disse Coppi, aos pensamentos de Saint Just, Babeuf, Proudhon tomados em empréstimo, poderiam apenas conduzir ao Anarquismo, ao Caos. Teu Estado, que em si mesmo faz-se supérfluo, porque não precisaria mais apoiar uma classe dominante, e porque ninguém mais deve ser suprimido, bem lembrado quanto ao gênero, sobre o que Lenin teria dito, que sejam capazes de se desfazerem dos velhos trastes, questão ainda a cada fase preparatória, que tens deixado na obscuridade mística, e com algo de autoritário, quando a Revolução acontece. Se com armas tivessem os vencedores imposto suas vontades aos vencidos, ao espalhar o terror, ao reafirmar o poderio, e antes que se diga um declínio do Estado, antes seja a se formar um novo Estado, com as normas de uma nova vida coletiva, e então começariam os problemas cotidianos, diante dos quais qualquer teoria revela o quanto vale. .... ....


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[trad. LdeM]

sábado, 12 de junho de 2010

vol. I - bloco 1 (final)


.... Realmente foram formas superdimensionadas que os bárbaros haviam derrubado, e assim não foram eternizadas, enquanto lá embaixo na cidade, nas ruelas, funcionavam os moinhos, as ferrarias e manufaturas, os ofícios no mercado, nas oficinas, os estaleiros no porto, também havia o santuário acima uns trezentos metros no alto monte, numa área cercada por muros de armazéns, casernas, termas, teatro, edifícios administrativos e palácios das clãs regentes, apenas acessíveis ao povo nos dias festivos, realmente ficaram apenas os nomes de alguns dos mestres se conservou, Menecrates, Dionisades, Orestes, e não os nomes daqueles que marcaram os esboços acima dos blocos de pedra, com broca e compasso os pontos-de-corte estabelecidos e que tinham treinado todo o senso artístico nas camadas-de-pedra, e não lembrado o trabalho penoso, ao quebrem o mármore e os grandes blocos que arrastaram em carros-de-boi, e apesar disso, disse Heilmann, alcançou o friso não apenas a vizinhança dos deuses em fama, mas também àqueles para os quais o domínio estava oculto, pois não eram ignorantes, e ao eterno não serviriam, mas quando do término da construção eles se ergueram, sob a orientação de Aristonikos [futuro Eumenes III], contra os líderes da cidade. De fato, os conflitos sempre estiveram ligados à Obra, desde quando surgiu. Quanto a isso, pode-se se perguntar quanto ao poder da realeza, em suas características de estilo, e predomínio de escultura. Pérgamo estava em sua época de esplendor, antes de cair no poderio do Império Bizantino, e a cidade era famosa por seus acadêmicos, e sábios, suas escolas e bibliotecas, e os peculiares pergaminhos, aqueles feitos da mais leve, raspada, polida pele de bezerro, que produziram como resultado de pesquisa e invenção constantes. O emudecer, o paralisar daqueles cujo destino foi este, o de serem pisados na terra, foi além do notável. Eles, os verdadeiros portadores das cidades jônicas, não informados por leituras e escritos, excluídos da atuação artística, valeram apenas a isto, a criar o necessário lazer a uma pequena camada de beneficiários da riqueza e da Elite de pensadores. A existência dos divinos foi inacessível para eles, que apenas poderiam se reconhecer nos seres embrutecidos e ajoelhados. Aqueles trazidos em maus-tratos, degradação e opressão, em desfile. O que transmitiu à representação do voo dos deuses e a aniquilação do acumulante perigo não a luta dos bons contra os maus, mas sim a luta entre as classes. Não apenas em nossa atual perspectiva, mas também reconhecida no olhar oculto dos servos daquela época. Porém, também a história posterior do Altar foi determinada pelos empreendimentos dos enriquecidos. Quando os fragmentos da imagem, que foram enterradas sob as ruínas de uma pré-asiática mudança de poder, ressurgiu à luz do dia, foram novamente os pensadores, os esclarecidos, os avaliadores que souberam aproveitar, enquanto os pastores e nômades, os descendentes dos construtores do templo, dos Maiorais de Pérgamo não viam nada além de poeira. Porém, além disso, não houve qualquer queixa, disse Heilmann, então preferiu-se a preservação dos fragmentos brilhantes da cultura helênica em um Mausoléu do mundo moderno onde deixar estes escombros anatólicos de um funeral sem-vestígios. Ali o nosso objetivo deveria ser a abolição da injustiça, o fim da pobreza, disse ele, e ao se considerar também o país num estado-de-transição, poderíamos nestes lugares demonstrar uma ampliada posse comum, que foi concedida na monumentalidade das formas. Assim nós vimos na luz mortiça dos abatidos e perecidos. A boca de um dos forçados, à quem o cão estava preso pelo ombro, estava meio-aberta, resfolegante. Sua mão esquerda repousa débil acima do tempestuoso pé de Artemis, revestido de couro, seu braço direito estava ainda erguido em auto-defesa, mas aos quadris já congelado, e suas pernas tornavam-se parte da massa esponjosa. Nós ouvíamos os golpes dos porretes, os estridentes apitos, os gemidos, o gorgolejar do sangue. Nós olhamos de volta à pré-história, e um momento longo encheu-se também com a perspectiva dos vindouros, as novas gerações, com massacres, que não se impregnaram da ideia de libertação. A eles, os subjugados, para ajudá-los devia chegar o Hércules, não para estes aos quais as armas e os tanques têm sido suficientes. Ao emergir das figurações havia uma relação, uma uniformidade na pedra. Nas fraturas do mármore às encostas da montanha ao norte da fortaleza tinham os mestres-escultores deixado à mostra, com suas longas estacas, nos melhores blocos e junto aos prisioneiros gálatas observados junto aos trabalhadores no abafado calor. Protegidos e refrescados por ramos de tâmaras, os olhos do ofuscante sol juntos apertados, recuperam os movimentos dos músculos, as flexões e distensões dos corpos suados. Os guerreiros vencidos arrastados em correntes, os presos por cordas sobre as escarpas rochosas, alavancas e cunhas golpearam nas camadas-estratos das branco-azuladas cristalinas brilhantes pedras calcáreas e os enormes blocos carregados por trenós de longos madeirames nos sinuosos caminhos desde abaixo, assim devido a rusticidade deles, os chamados costumes rudes deles, e temerosos andaram os senhores com seus cortejos junto a eles ao entardecer, quando eles [os servos] fediam, bêbados de aguardente vulgar, armazenados em uma cova. Porém, acima dos jardins da fortaleza, ao vento leve, que vem subindo do mar, eram as grandes faces barbudas a eles a matéria dos sonhos, e eles se lembraram, como haviam ordenados aos demais, a continuarem também de olhos abertos, boca aberta a mostrar os dentes, as veias inchadas nas têmporas, e testa, nariz e bochecha a brilharem na penumbra. Eles ouviram ainda o empurrar e o golpear, o levantar dos ombros e costas contra o peso das pedras, os ritmados gritos, as imprecações, as chicotadas, o ranger das vasilhas na areia, e viram adormecerem as formas dos frisos nos esquifes de mármore. Lentamente eles entalharam os membros expostos, apalparam, viram as formas se esboçarem, que era a perfeição das criaturas. Quando o roubado da energia deles transmitiu-se em pensamentos relaxados e à mostra, que a Arte era originada da dominação e da humilhação. Através do ruidoso redemoinho de uma classe escolar empurramo-nos no espaço mais próximo, a elevar-nos nos portais do mercado de Mileto ao crepúsculo. Das colunas do portão, da administração do porto ao amplo local de comércio tinham seguido, perguntou Heilmann, ou teríamos percebido como no interior lá na sala do Altar uma função espacial invertida, desse modo, que áreas externas viraram interior de muralhas. Com a face voltada para a escadaria ocidental, ele disse, tínhamos atrás de nós o lado oriental, assim o lado posterior do templo apenas em princípio reconstruído, e à direita estendem-se abertos os frisos meridionais, enquanto à esquerda o relevo segue aos frisos setentrionais. Que junto a lenta descrição deveria ser apreendida, agora colocada, por sua vez, ao redor do espectador. Este vertiginoso evento deixaria-nos compreender finalmente a Teoria da Relatividade, acrescentou ele assim, quando nós, ainda alguns poucos séculos mais fundo avançando, ao longo do muro de tijolos de argila, que se encontra primeiramente nas torres babilônicas de Nabucodonosor, e então subitamente a percorrer um pátio público, onde a folhagem amarelada, zunantes manchas de sol, ônibus amarelo-claro de dois andares, automóveis com reflexos relampejantes, torrentes de passantes e o ressoar compassado de botas com pregos exigiram um rearranjo de nossa orientação, uma nova indicação espacial.


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LdeM

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Vol I / bloco I ...

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.... A face lúcida de Heilmann, com perfil regular, com sobrancelhas espessas, a testa elevada, tinha encarado a Demônia da Terra. Ela [Gaia] tinha gerado Uranos, o Céu, Pontos, o Mar e todas as montanhas. Ela tinha gerado os Gigantes, os Titãs, os Ciclopes e as Erínias. Ali também a nossa espécie. Examinamos a história dos terrestres. Novamente olhamos aqueles que se espalharam sobre a terra. As ondas dos cabelos revoltos fluíam ao redor. Sobre os ombros carregavam um saco-de-peles cheio de romãs. Folhagens, folhas de parreiras ocultavam a nudez deles. No lado bem acima do rude e habilidoso plano das faces se reconhecia o toque de uma Graça de boca suplicante. Uma ferida abre-se do queixo até a laringe. Alcioneu, seu filho amado, volta-se, ajoelhado, inclinado perante ela. A ponta de sua mão apalpa-a. Dele o pé esquerdo, rumo a uma estendida e quebrada perna suspensa, ela ainda apalpa. Canela, abdômen, ventre e peito excitados em convulsões. Da pequena ferida, que a ele o réptil venenoso tinha golpeado entre as costelas, irradia-se a dor da morte. A ampla estendida vibração das aves ribeirinhas, que cresceram no ombro dele, retardaram sua queda. O contorno das fragmentadas faces sobre ele, com a rígida linha do pescoço, os cabelos atados encima, presos sob o elmo, expressa a Inexorabilidade de Atena. No ímpeto do movimento voou de volta ao seu amplo vestido cingido. Sob o deslizante traje deixa-se visível seu peito esquerdo na armadura de escamas, com a pequena e inchada face da Medusa. O peso do escudo redondo, em cuja correia o braço dela se encaixa, puxado adiante, para novos golpes, a Nike, deusa alada da Vitória, veloz, com suas asas poderosas, folgadas saias aéreas, detiveram-na a coroa, invisível, mas a se adivinhar além dos gestos, sobre cabeça. Heilmann apontou a esfumaçada Deusa da Noite Nyx, a qual, com um sorriso suave, lançava seu jarro cheio de serpentes ao manto semi-aberto que ondulava ao redor de Zeus, que com seu escudo, à pele dos perdidos, três inimigos chicoteava, e acima Eos, Deusa da Aurora, como se cavalgasse as nuvens, junto a ascendente parelha-dupla do desnudo deus-do-sul Helios. Assim irrompeu, diz ele [Heilmann] suavemente, o medonho massacre, em outro dia próximo, e já avançado no espaço envidraçado das raspas dos pés sobre o chão polido, o tiquetaqueante eco das solas dos sapatos sobre os íngremes degraus, que conduzem a erguida fronte ocidental do templo até aos pórticos do pátio interno. Outra vez nos encaminhamos aos relevos, que revelava em suas relações a todo momento, na violenta modificação antes-mantida, ao instante, no qual a concentrada força deixa adivinhar a inevitável consequência. Enquanto vimos a lança preparada antes do arremesso, a clava antes de abaixada, o impulso antes do salto, o recuo antes da colisão um com o outro, movia-se nosso olhar de figura a figura, de uma situação a outra, e em todo o círculo, ao redor, começou a vibrar a pedra. Porém, de Hércules, sentimos a falta, o único mortal, o qual, segundo a Saga, aliou-se aos Deuses na luta contra os Gigantes, e procuramos entre os corpos na parede, os restos de membros, aquele filho de Zeus e Elcmena, o aliado terrestre, que através da bravura e persistente trabalho encerraria o tempo das desventuras. Apenas encontramos uma marca do nome dele, e a pele de leão, que ele trajava como se fosse um manto, senão testemunhava não mais de sua posição entre a parelha de quatro cavalos de Hera e o atlético corpo de Zeus, e Coppi considerou isso um presságio, que justo ele, o nosso semelhante, e que nós mesmos tínhamos feito imagem dos feitos deste intercessor. Desse modo à apertado e baixo acesso ao lado dos salões iluminou-nos à saída no torvelino nos tumultos dos visitantes do museu, ao encontro dos uniformizados de preto [SS] e pardo [SA] com suas braçadeiras vermelhas, e sempre quando eu mergulhava o olhar no fundo branco do emblema, girante e cortante, voltava para a aranha venenosa bruscamente cabeluda pintada com lápis, tinta, tinta nanquim, sob a mão de Coppi, assim como eu a conhecia desde as aulas no Instituto Scharfenberger, quando Coppi sentava-se numa carteira ao meu lado, a figurar estampada sobre pequenas imagens, anexos, guarda-louça, até nas caixas de cigarro, sobre recortadas ilustrações de jornais, o símbolo e emblema dos novos senhores, as gordas faces, aqueles com colarinhos de uniformes levantados, cheios de verrugas, presas, rugas perversas e sangue derramado. Também Heilmann, nosso amigo, vestia a camisa parda, com mangas enroladas, a correia no ombro, a corda do apito, o punhal na calça curta, porém ele vestia este uniforme como disfarce, como disfarce para seu próprio entendimento, e enquanto disfarce para Coppi, que vem de um trabalho ilegal, e para mim, que estava pronto para viajar à Espanha. Assim estávamos em vinte e dois de setembro de mil novecentos e trinta e sete, dois dias antes de minha viagem, diante do extenso e reconstruído friso do altar da acrópole de Pérgamo, o primeiro, pintado colorido e construído com metais forjados, que tinha brilhado à luz dos céus do Mar Egeu. Heilmann informou as dimensões e a localização do Templo, como este se mostrava, quando ainda intacto, não danificado por tempestades de areia, terremotos, pilhagens, depredações e incêndios, disposto em terraços na colina das residências, acima da cidade, hoje chamada de Bergama, em elevada plataforma, cento e dez quilômetros ao norte de Esmirna, entre os estreitos e ressequidos rios Keteios e Selinos, mirando à oeste, sobre a Mísia, na Anatólia, no curso dos mares e a ilha de Lesbos, uma arquitetura de bases quase quadradas, trinta e seis a trinta e quatro metros de dimensão, vinte metros o amplo lance de escadaria, edificada por Eumenes II, em agradecimento aos Deuses pela concedida ajuda na guerra, no ano cento e oitenta antes da nossa Era, iniciada e construída durante vinte anos, amplamente visível, no século II depois de Cristo, enumerada por Lucius Ampelius, em seu livro de memórias, entre as Maravilhas do Mundo, antes que se degenerasse em ruínas durante um milênio. E é esta massa de pedra, perguntou Coppi, que serviu ao culto dos princescos sacerdotes, a exaltar a vitória dos Aristocratas sobre a multidão de plebeus servos-da-gleba, que agora tornou-se um valor destacado e gratuito, pertencente a todos, exposto. ...
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sábado, 29 de maio de 2010

Vol 1 / I - bloco inicial (continua)

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E tal um gracioso cabelo enrugado, tal artísticas vestes modestas, enrugadas e apertadas, tal um gracioso ornamento ao cinto do escudo/brasão, à proa do elmo, tal o suave brilho da pele, pronta para as carícias, porém exposta à implacável competição, à laceração e aniquilação. Com a face semi-mascarada, detendo uns aos outros, e colidindo-se, uns aos outros estrangulando, escalando, à cavalo escorregando, na rédea envoltos, extremamente vulneráveis na nudez, e de novo raptados em olímpica frieza, invencíveis surgindo como monstro-do-mar, grifo, centauro, mas em caretas de dor e desespero, assim lutaram eles uns com os outros, amontoados na mais nobre missão, sonhando, inertes em louca-desvairada violência, silentes em inaudível ressoar, entrelaçados todos em uma metamorfose da dor, tremendo, agarrando-se, esperando um despertar, em constante suportar e contínuo revoltar-se, em inaudível ímpeto, em extrema tensão, a ameaça de conquista, a decisão de bradar. Um vago soar e sussurrar ressoou acima agora e de novo, o ecoar de passos e vozes ao nosso redor em longo momento, e então estava acima novo apenas esta batalha tão próxima, nosso olhar deslizou sobre os dedos nas sandálias, se afastando dos crânios dos derrotados, sobre os agonizantes, cuja mão paralisada repousa meiga sobre o braço da deusa, a segurar-lhe o topete. Do friso os combatentes da terra, de suas estreitas e regulares rondas lançavam-se na confusão, acima deles colidiam os cascos dos cavalos, acima deles arranhavam as orlas dos trajes e contorciam-se as pernas em forma de serpente, apenas a uma estrela sozinha era a base atravessada, aqui erguia-se a Demônia da Terra, com a face rachada abaixo da órbita dos olhos, os peitos maciços em delgado envoltório, os pedaços soltos de uma mão procurando erguida, a outra mão em suspenso a pedir, destacada da aresta de pedra e estendida para cima para perfilada vantagem, se esgueirando dedos nodosos, como se estivessem ainda sob a terra e desejasse alcançar a junta da aberta mão feminina sem-polegar, movimentam-se abaixo e ao longo dos frisos, buscando os manchados rastros de letras gravadas, e a face de Coppi, com olhos míopes detrás de óculos com delgados aros de aço, aproximou-se do caracter-hierógrifo que Heilmann decifrou, com a ajuda de um livro compartilhado. Coppi voltou-se para ele, concentrado, com ampla boca bem desenhada, grande e avançado nariz, e nós demos aos oponentes neste grupo seus nomes, e comentado, meio aos ruídos, as causas da luta. Heilmann, o de quinze anos, a cada dúvida que se mostra, que não tolerava nenhuma explicação não-imediata, de vez em quando também acrescentava a exigência poética ao proposital desregramento dos sentidos, queria ser cientista e vidente, ele, o nosso chamado Rimbaud, explica-nos, a nós já por volta dos vinte anos e na escola atrasados quatro anos, ele já conheceu a vida profissional, e também o desemprego, e Coppi, e seu longo ano na prisão, devido a divulgação de escritos subversivos, o sentido dessa ciranda, o unido grupo de deuses, guiados por Zeus rumo a vitória ao pisar sobre uma raça de gigantes e seres fabulosos. Os gigantes, os filhos da lamentante Gaia, do busto diante do qual ficamos parados, tinha se incriminado contra os deuses se rebelado, outra luta porém, acima do Reino de Pérgamo já acabado, resguardado sob esta representação. Os regentes da Dinastia dos Atálidas serviram-se de seus mestres-escultores, de breves delitos, que acabaram pagando com suas vidas, para se erguerem acima da existência com um monumento à Grandeza e à Imortalidade. A partir da submissão dos povos gálatas invasores vindos do norte, os nobres tiveram um triunfo sobre as forças rudes e vulgares, e os formão e martelo dos cortadores-de-pedra e seus artesãos tiveram a forma de uma não-derrubável ordem de súditos apresentados todos inclinados em reverência. Em místico disfarce aparece um evento histórico, imenso ao alcance, provocando horror, admiração, mas compreensível quando não invocado por pessoa, antes apenas aceitável se for uma força sobre-pessoal, que o dominado, o escravizado desejasse, em inumerável, e pouco acima, a fixar os destinos com um apontar de dedos. O povo quase não ousou quando se preparou para os dias festivos, a olhar para a imagem de sua própria história, e lá andar ao redor há tanto tempo, junto aos sacerdotes, os filósofos e os poetas, o artista que viajou para cá, cheio de conhecimentos até o templo, e era entregue para o iniciado em mistério mágico, era julgado sério para o adepto de um ofício. Os adeptos consagrados, os especialistas falam de Arte, eles elogiavam a harmonia do movimento, o emaranhar dos gestos, os outros, porém, nem ao menos conhecem o conceito de cultura e educação, a olhar furtivo na ampla goela, a notar o golpe da pata na própria carne. Prazer a facilitar a obra dos privilegiados, um estar-separado sob severa lei hierárquica os outros suspeitam. Algumas esculturas porém, disse Heilmann, não precisam ir além de seus símbolos, aquele caído, e por si mesmo abatido Gálata aponta a iminente Tragédia de uma situação real, estes porém, respondeu Coppi, não tivessem se encontrado em liberdade, senão entre os troféus nas salas-do-trono, somente em seguida indicam a quem foram tirados os escudos e elmos, os maços e feixes de espadas e lanças. Singular junto as garantias da dominação dos reis sucedendo-se nas guerras. Os deuses, que se confrontaram com os espíritos-da-terra, detêm vivamente as representações de determinadas proporções-de-força. Um friso cheio de soldados anônimos, os quais com ferramentas de bronze, atacaram em combates, durante anos, outros tantos anônimos, tivessem voltado a visão aos servos, ergueriam suas posições, pois não são os guerreiros, mas os reis, que levaram as vitórias, e quem venceu deve ser igualado aos deuses, enquanto os vencidos eram desprezados pelos deuses. Os privilegiados sabiam que nenhum dos deuses havia lhe entregue algo, pois eles sabiam bem que eles mesmos vestiam as máscaras. Tanto mais eles se impuseram ao cercaram-se de pompas, luxo e honras. A Arte também serviu a eles, ao conceder-lhe um status, uma autoridade de aparência sobrenatural. Nenhuma dúvida seria permitida sobre a perfeição deles.
(...)

LdeM

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Estética da Resistência - Volume I / I



Peter Weiss
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Die Ästhetik des Widerstands
A Estética da Resistência
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trad. Leonardo de Magalhaens
Erster Band / Volume I

I
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Em volta, ao redor de nós elevam-se os corpos feitos de pedra, juntos aglomerados em grupos, entrelaçados ou quebrados em fragmentos, com um tórax, um braço amputado, um quadril rachado, um retalhado pedaço em sua forma insinuada, sempre nos gestos de luta, desviando, voltando rápido, golpeando, se protegendo, esticado para cima ou encurvado, aqui e ali apagado, porém ainda com um pé erguido e resistente, uma coluna dorsal contorcida, o contorno de uma panturrilha esticada em um único movimento comum. Um enorme combate, surgido da parede cinzenta, reportando ao seu acabamento, caindo sem forma. Uma mão estendida do chão, punho em prontidão, além da área vazia, com o ombro grudado, uma face cheia de arranhões, com fissuras amplas, boca bem aberta, olhos fixos olhando fixamente, rodeados por cachos de barba, as impetuosas dobras das vestes, todas próximas de seu carcomido fim e próximas da origem. Mantendo cada detalhe de sua expressão, em frágeis fragmentos, dos quais a forma completa se deixa reconhecer, tocos rudes junto a polida superfície lisa, vívida do jogo de músculos e tendões, cavalo-de-batalha em louça condensada, arredondado escudo/brasão, espada alongada, rudíssimo oval da cabeça rachada, balanço estendido, triunfante braço erguido, calcanhar em salto, esvoaçado desde as vestes, punho fechado não mais ao redor da espada disponível, desgrenhado cão de caça, os focinhos mordem quadril e nuca, um caído, com a base dos dedos apontada aos olhos da besta-fera sobre ele, desabado leão, uma guerreira protegendo, com a pata recuando para o golpe, com mãos munidas de garras-de-pássaro, chifres erguidos de importante fronte, ondulando pernas, cobertas com escamas, uma ninhada de serpentes em toda parte, em um estrangular ao redor de ventre e pescoço, refreando os afiados dentes revelados, golpeando sobre o peito desnudo. Estas faces então talhadas, novamente se apagando, estas mãos potentes e despedaçadas, estas amplas revigoradas narinas se afogando em rocha apática, este olhar de pedra, estes lábios estendidos num grito, estas pisadas e batidas, estes golpes de pesadas armas, estas polias de rodas blindadas, estes feixes de fulminados raios, estas pisadelas, este rebelar-se contra e romper-juntos, este infindo esforço, se arrastando acima dos granulados blocos.
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original
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Rings um uns hoben sich die Leiber aus dem Stein, zusammengedrängt zu Gruppen, ineinander verschlungen oder zu Fragmenten zersprengt, mit einem Torso, einem aufgestützten Arm, einer geborstnen Hüfte, einem verschorften Brocken ihre Gestalt andeutend, immer in den Gebärden des Kampfs, ausweichend, zurückschnellend, angreifend, sich deckend, hochgestreckt oder gekrümmt, hier und da ausgelöscht, doch noch mit einem freistehenden vorgestemmten Fuß, einem gedrehten Rücken, der Kontur einer Wade eingespannt in eine einzige gemeinsame Bewegung. Ein riesiges Ringen, auftauchend aus der grauen Wand, sich erinnernd an seine Vollendung, zurücksinkend zur Formlosigkeit. Eine Hand, aus dem rauhen Grund gestreckt, zum Griff bereit, über leere Fläche hin mit der Schulter verbunden, ein zerschundnes Gesicht, mit klaffenden Rissen, weit geöffnetem Mund, leer starrenden Augen, umflossen von den Locken des Barts, der stürmische Faltenwurf, eines Gewands, alles nah seinem verwitterten Ende und nah seinem Ursprung. Jede Einzelheit ihren Ausdruck bewahrend, mürbe Bruchstücke, aus denen die Ganzheit sich ablesen ließ, rauhe Stümpfe neben geschliffner Glätte, belebt vom Spiel der Muskeln und Sehnen, Streitpferde in gestrafftem Geschirr, gerundete Schilde, aufgereckte Speere, zu rohem Oval gespaltner Kopf, ausgebreitete Schwingen, triumphierend erhobner Arm, Ferse im Sprung, umflattert vom Rock, geballte Faust am nicht mehr vorhandnen Schwert, zottige Jagdhunde, die Mäuler verbissen in Lenden und Nacken, ein Fallender, mit dem Ansatz des Fingers zielend ins Auge der über ihm hängenden Bestie, vorstürzender Löwe, eine Kriegerin schützend, mit der Pranke ausholend zum Schlag, mit Vogelkrallen versehne Hände, Hörner aus wuchtigen Stirnen ragend, sich ringelnde Beine, mit Schuppen besetzt, ein Schlangengezücht überall, im Würgegriff um Bauch und Hals, züngelnd, die scharfen Zähne gebleckt, einstoßend auf nackte Brust. Diese eben geschaffnen, wieder erlöschenden Gesichter, diese mächtigen und zerstückelten Hände, diese weit geschwungnen, im stumpfen Fels ertrinkenden Flügel, dieser steinerne Blick, diese zum Schrei aufgerissnen Lippen, dieses Schreiten, Stampfen, diese Hiebe schwerer Waffen, dieses Rollen gepanzerter Räder, diese Bündel geschleuderter Blitze, dieses Zertreten, dieses Sichaufbäumen und Zusammenbrechen, diese unendliche Anstrengung, sich emporzuwühlen aus körnigen Blöcken.
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Peter Weiss, Die Ästhetik des Widerstands.