domingo, 15 de maio de 2011

Volume I - bloco 7 (2/2)









[...]



Coppi achou este olhar frio, incomunicável, o caráter definitivo do descrito parecia-lhe fatídico. Os maiorais [a Elite] mantinham-se cercados por armas, por estandartes, protegidos por uma abóbada celeste, e separados, sempre em gestos de mútua destruição, estavam os soldados. Nem as pernas dispersas do cavalo, nem o machado que balançava, ao lançamento de um dardo, tiravam a oportunidade de um movimento contínuo, uma mudança de lugar. Nas atitudes equilibradas não se pensava qualquer queda ou arremesso contrário, nem qualquer volta ou giro, mudança ou revolução. Nada havia de diverso desta peculiaridade destes concentrados segundos que se observava, tudo o mais era excluído em favor dos aspectos visuais de um entrelaçamento de artesanato de cestos [Flechtwerk], mantendo-se fora das linhas de espadas e lanças, das rédeas e das barras de estandartes, as curvas dos escudos, dos elmos e coxas de cavalos, das colunas e pilares das pernas, da gradação dos braços, mãos e faces, dos pontos de vista dos olhos sob escuras sobrancelhas. Daí veio a estranheza, a excentricidade da pintura, que esta, apesar de seu conteúdo figurativo, queria imitar nada da Natureza. Possuía sua luz peculiar, e o acontecimento nela [na pintura] era uma harmonia de colorações. Uma tal declaração seria especulativa, disse Coppi, e não desenvolvia o nosso assunto. O que então foi combatido nada tinha a ver com a nossa luta. Porém as objeções serviam, aquelas que apresentávamos, com frequência apenas quanto a isso, para aguçar nosso julgamento. Por que, nos perguntávamos, nós nos interessávamos por esta pintura que na escolha de seus agrupamentos baseava-se em divisões de classes. Porque precisávamos do conhecimento de tais obras, que considerávamos em seu integridade. Precisávamos destes singulares produtos sofisticados da Arte, da Literatura, para ser um complemento para o nosso lado, sem qualquer monumento, e conhecido pela pobreza e pela miséria. Juntamente podia emergir alguma hostilidade. Porém sempre de novo predominava o impulso que, ao tratar com o hostil, indiferente queria opor-se a nós, como se além disso apenas para dar-nos tema de estudos. Assim igual as sombras, que no jogo variado dava aos corpos ar e vivacidade, eram banidos, assim era apesar da confusão de pernas, nenhuma marca de patas ou cascos visível em todo aquele chão. De forma estatuária destacavam-se os corpos em tumulto, envoltos com malha de escamas, couraças-de-ombro e escudos, porém ninguém possuía realmente alguma consistência, realmente peso. As faces dos guerreiros olhavam fixamente, sob os gigantescos elmos, imóveis e apáticos, para além do cruzar de armas. Às vezes minha memória projetava um detalhe da pintura nas caldeiras, cilindros e êmbolos das centrífugas, com as quais eu trabalhava. Na maioria das vezes, as faces eram insensíveis, porém cheias de expressividade, sérias, silentes, meio ao confronto, que eu via diante de mim, três delas com tons de branco e profundo verde destacadas, estavam entre ornamentos de armaduras, espadas e lanças junto-acotoveladas, a primeira oblíqua e frontal, emoldurada por uma barba com manchas brancas, a segunda em perfil, com abobadado nariz em forma de bico, com um lábio inferior avançado, a terceira atrás destas, os dentes brilhando na boca aberta, a bochecha fendida por um golpe, transbordando de sangue, e no apoio mútuo, porém, mantinham-se cada um por si, com o mesmo olhar meditativo. Intercalada entre uma cortante e avançada viseira fechada, de um trombone, de uma clava, uma cabeça de cavalo olha uma outra com extrema atenção ao encontro de quem observa, e assim muito ele havia recorrido a este procurar, que ele não percebia, o que lhe fora infligido, pois atrás dele avolumava-se um punho ao redor do nó do punhal, cuja ponta perfurava-lhe a garganta. O drama, elemento neste período da história da verdadeira cruz, acontecia assim ao mesmo nível a um segundo trecho, porém aqui não confinado, oculto, mas ao contrário bem evidente, quase como se apresentado à instrução. Justo agora um braço estendido cuja mão azulada agarrava leve e frouxamente ao artístico cabo cinzelado e golpeava o longo e fino fio de corte fundo na vertical garganta para-trás-encurvada do adversário. Este voltava seu perfil com o queixo para cima, seu crânio ficava na casca do elmo pintado com um padrão floral, e a face do seccionado acima dele pressionava a mesma cuidadosa e prática reflexão que devia ter guiado o pintor na criação de sua pintura. E já víamos também, como nas obras, que eram dedicadas aos preferidos e escolhidos, as faces dos soldados, dos servos se faziam valer, como eles se destacavam, mas convincentes, mais fortes e mais experientes do que seus próprios senhores. Nas obras de Mantegna e Masaccio, Grien, Grünewald e Dürer, nas obras de Bosch, Brueghel e Goya os trabalhadores já entravam em primeiro plano. Os pastores e os pescadores, que tinha se conformado a suas funções decorativas, perderem de súbito, nas pinturas de Poussin, a simplicidade e brandura deles e carregarem sofrimentos, como se eles estivessem descritos em tragédias clássicas. Um ferreiro, um marceneiro seriam em La Tour com seus trabalhos assim destacados, que eles ocupavam sozinhos nas molduras, sem mandante e comprador. Vermeer, Chardin conservavam maturidade, beleza não para os mestres, mas para as costureiras, as lavadeiras, as empregadas domésticas. Fossem as ordens determinadas historicamente, as condições de uma determinada época uma vez reveladas, assim nos defrontaria uma duradoura imagem da realidade, e isso se deixaria distinguir, em que grau o artista preparava o desenvolvimento futuro e qual atitude ele tinha adotado diante da opressão suportada século após século. Em muitas obras, indiferentes, se Príncipes, Prelados ou Mecenas especulativos tivesse sido apresentados nelas, pois elas possuíam a permanência de um peculiar sentido de verdade, na superação de preconceitos e limites, desde então incluído o elemento da perda de classes. A renovação social, a aceitação de descobertas e conquistas das mãos dos dominantes, a produção do poder em particular, a fundação do nosso pensamento científico, estes eram temas que nós podíamos nos apresentar na Arte, na Literatura. Porém em vistas das possibilidades inumeráveis da expressão, que tínhamos conhecido, e as diversas capacidades de recepção, reações e retoques em que ponderávamos, chegávamos à convicção que se desenvolveria entre os intelectuais socialistas uma nova Arte e que o caminho daqueles de igual disposição de suas tendências certamente despachariam todas as diretivas programáticas. Também foram suficientes as aberrações e tentativas fracassadas, quando elas permaneciam ao lado da Revolução, e cada um deveria selecionar a partir das possibilidades disponíveis do antigo e do novo, o que corresponderia aos seus próprios pensamentos. Nós, que nos informávamos a partir de uma iniciativa peculiar sobre os eventos da atualidade, que extraíamos daí as nossas conclusões e tínhamos escolhido nossa filiação política, também exigida pelo Partido, ao qual pertencíamos ou nos aproximávamos, que merecia a escolha, aí encontrávamos a área cultural. O fato de que nós jovens trabalhadores, como também nossos pais e mães, que crescêramos sob os tempos de guerras e carestia, geralmente nos envolvíamos com Arte e Literatura, e que assim de pronto eram as próprias descobertas, que podíamos contra por às condições sufocantes de vida, expressava assim a nossa cultura futura que chegaria a partir de nós mesmos e que nós por isso antes de tudo precisávamos da confiança em nossas capacidades. Tudo isso era um esboçar. Agora, neste último dia na cozinha de Coppi, eu via a dimensão do que se iniciara, o que fora reunido por nós, por isso se passara a hora breve, preenchida livros e lugares, quadros e oficinas, museus e realidades políticas, antes do início do exercício de proteção aérea. Os anos que eu tinha passado neste país [Alemanha] tornavam-se notadamente compactos, eu me encontrava numa reviravolta, numa transição para um novo período de vida. Porém isto era então a correta definição, nós perguntávamos, quando falávamos sobre a minha vindoura viagem, a mudança de residência possuía ainda uma importância quanto às tarefas diante das quais nos posicionávamos, que eram as mesmas em todo parte e nos mantinham unidos. Após as cenas de batalhas em Arezzo, disse Coppi, ao saudar recapitulando o nosso período Francesca, e entregava-me uma das figuras dos inícios de nossa atividade artística subversiva. Tratava-se de uma série de cartões de comandantes do exército desde a Guerra Mundial [de 1914-18] e os grandes do Partido fascista [do NSDAP, os nacional-socialistas, a.k.a. nazistas], que ele tinha transformado em caricaturas ofensivas. Elas seriam preenchidas com palavras-de-ordem, nas quais de modo grosseiro lembram os conhecidos, que eles [os fascistas] eram, falsários de diplomas, ladrões da cultura popular, racistas, assassinos em massa, e para ficar mais completa a explicação sobre as intenções deles, eles seguravam um punhal, um machado, uma pistola. A partir destas caricaturas, que ele fixava em quadros-de-aviso do trem subterrâneo [metrô] e em tabela de horários de ônibus ou tinha colado em colunas para cartazes, sobre placas para grandes comícios, mais tarde originariam os panfletos copiados por ele mesmo, graças aos quais, quando os distribuía diante de uma fábrica, ele seria preso. Porém Heilmann tirou de mim a figura. Sempre ainda, ele disse, vocês subestimam o aparato de poder do adversário. Ele se ofereceu para guardar os desenhos de Coppi, como também os escritos escondidos junto ao fogão, no porão da casa de seus pais, onde não seriam descobertos, e sugeria, por precaução, além disso, no brasão da porta, pendurar uma foto do Führer, o que devia impressionar a qualquer um que entrasse, de um modo diverso.








[pausa]





.
mais sobre Dante, Inferno
http://pt.wikipedia.org/wiki/Dante_Alighieri
http://pt.wikipedia.org/wiki/Divina_Comédia
.
.
Pietro della Francesca
http://pt.wikipedia.org/wiki/Piero_della_Francesca
http://www.ibiblio.org/wm/paint/auth/piero/
.
.
mais sobre os artistas
Mantegna, Masaccio, Grien, Grünewald, Dürer
http://pt.wikipedia.org/wiki/Andrea_Mantegna
http://pt.wikipedia.org/wiki/Masaccio
http://pt.wikipedia.org/wiki/Hans_Baldung
http://pt.wikipedia.org/wiki/Matthias_Grünewald
http://pt.wikipedia.org/wiki/Dürer
.
.
mais sobre Bosch, Brueghel, Goya, Poussin,
La Tour, Vermeer, Chardin
http://pt.wikipedia.org/wiki/Hieronymus_Bosch
http://pt.wikipedia.org/wiki/Pieter_Brueghel_o_velho
http://pt.wikipedia.org/wiki/Goya
http://pt.wikipedia.org/wiki/Nicolas_Poussin
http://pt.wikipedia.org/wiki/Georges_de_La_Tour
http://pt.wikipedia.org/wiki/Vermeer
http://pt.wikipedia.org/wiki/Jean-Baptiste-Siméon_Chardin


.

em breve o bloco 8 ...........

.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Volume I - bloco 7 (1/2)






bloco 7










A Divina Comédia era tão inquietante, rebelde, e também com forma e tema aparentemente bem diverso quanto o Ulisses [de James Joyce], o qual tínhamos conhecido primeiramente em fragmentos, como se fosse jogo-de-palavras, hieróglifos. O que acontecia então aqui, nos perguntávamos desde o verão deste ano [1937], com o modo de imaginarmos algo como uma cúpula invertida, afundada para dentro da Terra, com seus círculos, cada vez mais fundos, e que devia exigir a duração de uma vida, enquanto ela seguia a fase até a chamada ascensão, que se fazia em espirais, até o alto, que estava além do representável. Nós ainda não tínhamos prosseguido desde a Francesca de Rimini e Paolo Malatesta [o Segundo Círculo, o dos luxuriosos], e já tínhamos passado muito tempo com a reinterpretação da tradução de Gmelin, na Biblioteca Universal Reclams, e a de Borchardt, na edição de livro de bolso da Editora Cottaschen, comparando as três fileiras com os terceiros italianos, que Heilmann, baseando-se em seus conhecimentos de latim e francês, lia para nós. Em certo modo algo contrastante das impressões linguísticas, das metáforas esmeradas, do ritmo perdido e da sequência de sons avançava nos íntimos contextos de um fervor nunca declinante que notávamos quando em nós mesmos despertava as experiências, das quais antes nem sabíamos, mas estavam preparadas, a atingirem o efeito através da Poesia. Da leitura nada queríamos de místico ou irracional, o que nos aborrecia, mas decompor cada lembrança em seus componentes, em discussões sobre a floresta na qual seguíamos ao lado do andarilho, durante semanas, e depois voltávamos depois com frequência, com consciência, para entender alguns motivos/temas nestas cantigas. Ao mesmo tempo era um movimento de tatear às cegas, no mundo da percepção em lugar não retornável, cuja porta de entrada e átrio seriam descritos de modo concreto assim como o bosque com seus animais, suas peculiaridades topográficas, sua luz lenta vertendo adiante, permitia a descrição de ampla aventura. Desde as primeiras linhas formava-se a impressão, que se aqui descrito, realmente não se deixava expressar com palavras e imagens, e quando se ajuntava o impossível então, de linha a linha, de trecho a trecho, em modo simétrico, com sucessivos números de margem de reforçada estrutura, a uma estável, harmônica, pensada unidade não mais diferente, seria o triunfo da faculdade de imaginação elucidada sobre o caótico, esquivante, de todo duvidoso. Isto mostrava-se não apenas a trilha adentro na estrutura de almas no Inferno, na qual a matéria-prima de uma época se condensava à visão subjetiva, ao contrário o ritmo no mecanismo do trabalho artístico. Junto a Arte se relacionavam pensamentos sobre a morte. O escritor da Poesia encontrava-se no meio da vida, porém ele se entregava em seu trabalho tanto a um morto enquanto guia [Virgilius] , quanto também ao encontro com os mortos. Enquanto ele seguia, ele se deslocava nesta proximidade da morte, o que ele respirava era um ar cheio de morte, junto aos falecidos, o reflexo daqueles que nada mais possuíam, e assim, ao meditar sobre isso, o que os mortos ali ainda sobreviviam diante dele, ao adentrar cada região, nas quais ele naturalmente esperava encontrar o próprio esqueleto, pois a ele parecia como se ele também fosse falecido. Podíamos comparar a viagem dele com a inércia embriagante do sono, conhecíamos o súbito cochilar ao alcance, o começo do sono, os instantes nos quais os ganchos-presilhas nas correntes da grua podiam te golpear o crânio, a correia de transmissão da máquina podia te arrancar o braço, ou à noite, de madrugada, de manhã cedo, que isso não permitia perceber se o quarto, no qual estávamos, era parte de um sonho ou se o sonho projetava-se em teu quarto, e neste estado intermediário, rodeados de pesado cansaço, porém ainda em condições, para ver, para ouvir, a nutrir pensamentos sobre o que parecia de relevante, a fazer-se notável e objetivo, quando ele compunha letras sobre o papel. Não podíamos ainda compreender a elaboração de um livro, uma pintura, até aquele momento éramos apenas receptivos à Arte e tínhamos, exceto por alguns poemas de Heilmann, no máximo elaborado de vez em quando um relato, muitas vezes sobre experiência além do âmbito do trabalho, que novamente referia-se a uma infinda dificuldade, do que chegar a uma amplitude, uma maior visão de conjunto. E comentávamos todo o complexo que nos oferecia o livro de Dante, e os sentimentos de culpa que faziam parte. Também insistíamos no nosso direito de ter livros, assim acontecia porém que devia ser uma leitura não sem cautelas. Nem ao menos os pais de Coppi participavam, em total impossibilidade, que assim tínhamos avaliado para o salto desde o concebido até o peculiar, aqui percebíamos bem o isolamento quanto ao que seríamos capazes de ler, mas não tínhamos aprendido no tempo certo, como era abrir e considerar um livro. Quando nós, com tanta convicção, falávamos de nossa auto-consciência cultural, e quando também sabíamos como essa tinha se mantido em alguns grupos, e assim muitos havia, empurrados adiante, não podíamos aceitar, a pensar diferente sobre a terrível paralisia a qual por causa do brutal domínio do poder, privava a leitura de iniciativa, tempo livre, incentivo e exemplo. Não era suficiente fazer com que as bibliotecas fossem abertas, mas antes superar a ideia obsessiva ao longo de gerações de que o livro não era algo feito para você. Nós nos sentávamos aos domingos no bosque Humboldt [Humboldthain] ou no cemitério da paróquia de Hedwig, na vizinhança da rua Plug [Plugstrasse], e procurávamos descobrir o que a Divina Comédia tinha a ver com a nossa vida. Nós supúnhamos antes de tudo que o despojamento seja uma das condições para a produção da Arte, que aquele que produzia se dedicava a conquistar algo fora de si mesmo. Porém isso soava de novo nada razoável, a Arte representava nossa convicção a uma maior realidade, porém, e assim era apenas para se alcançar através da tensão de todas as forças vitais. Então assim se revelava no determinado, conscientemente executado andamento da composição, que o misturar do pensamento de morte, a vida com a morte e com os mortos em si, bem podia provocar o impulso à obra-de-arte, que, porém, o produto pronto era determinado para os vivos e também por isso devia se apreender e refletir segundo todas as regras dos vivos. Dante demonstra este método de duplicidade, no qual superava o sobressalto diante do próprio delito, quando ele deixava símbolos que sobreviviam à vida particular [do Autor], e quando de início parecia, quando se ocultava esta transformação sob símbolos e alegorias, que apenas eram compreensíveis a quem era familiarizado com a Escolástica, assim deixava-se o trabalho de filigrana das metáforas, porém examinar mais e mais segundo detalhes, que a partir de uma imediata vizinhança falam de uma realidade observada. Não era mais necessário que entendêssemos as mensagens como elas talvez pretendessem dizer desde seiscentos anos, antes, ao contrário, que elas se deixavam deslocar até nossa época, que elas adquiriam vida aqui, neste parque, junto aos brinquedos das crianças, aqui, entre estas covas recentemente acumuladas, sob a Igreja de São Sebastião [Sankt Sebastian Kirche], assim era que [a obra artística] se fazia durável, a despertar nossas próprias ponderações, que ela exigia nossas respostas. Apesar de rodeados pela ruína, não ocorria-nos nunca o pensamento de que nossa vida recém-iniciada poderia ser precocemente extirpada, porém agora a própria morte seguia para um momento desde já divergente no foco, do qual se esquivava novamente, porém apenas o que sabíamos então, para mais tarde novamente emergir, cada vez mais nitidamente. Dante seguia entorpecido, porém rodeado por personificações, disformes, grotescas, resfolegantes ao redor, tais como lince, lobo, até rugindo com voz de leão, a ele acossando novamente, no declinar, e o que era o salvador, o guia de certo modo diferente diante da lembrança, deixava surgir a perseverança onde houvera ainda recente instabilidade. Aquele de Mântua, o lombardo, lhe chamava a continuidade no sentido, modo de pensar, que se prosseguia sobre vida e morte, e acima deste modo podia ao ponto-limite, onde esperava a dissolução, que o mundo fácil de se perder ainda poderoso de certo modo, a ficar mais violento, tumultuado, tudo se colocando de encontro a ele, o que lhe animava para a atividade mais poética, mais política, o que desfazia as esperanças dele, ele [Dante] expulso de Florença, sendo subjugado pelo exílio e pela miséria, e também que o que se tinha obtido após a auto-renúncia e ascetismo na vida. Ali junto a entrada do Reino dos Perdidos, ainda antes que Caronte empurrasse o barco para a travessia do Aqueronte, logo ficou esclarecido que se tudo se espiralava aqui não um Além no interior da Terra, ao contrário o mundo habitado, que Dante tinha invertido, de ponta-cabeça, na virada só século treze para o quatorze, com tudo o que denunciava de tumulto e maldade, ciúme, ira e ilusão. Desde o acúmulo de figuras/símbolos, das quais cada um era preso em suas manias, ele destacava sempre novamente detalhado, depois que ele tinha primeiro se abandonado ao frio apontar-de-dedos de Virgílio [a indicar a direção], e não apenas até desnudar a pele, com suas cicatrizes, deformações, caracterizada na loucura deles, eles [os Perdidos] se apresentavam aqui, senão enquanto representantes de determinados interesses de classe. Às vezes dominado por emoções diante da visão deles, os quais ele tinha defrontado em intrigas e controvérsias, porém sucedeu a ele o fato de registrar um padrão social, que para sua época devia ter sido notável. Aqui [na Divina Comédia] estavam todos os Grandes da época, até os Imperadores e Papas, retratados com seus nomes próprios, com traços individuais, e de suas paixões se incendiavam, numa irrupção, numa glaciação, nas quais se consumiam por toda a eternidade. Antes de tudo nós tínhamos folheado então, onde estava registrado o infortúnio provocado por eles mesmos, e já podiam reconhecer como se sistematizava a imensa fartura. A alucinação, na qual o matar e o torturar recaíam sobre o culpado, na qual cada perversidade foi à própria libertação, era ao mesmo tempo quase uma pedante catalogação de todos os atributos, os quais se trazia com a ascensão ao poder. Porém este moralista continuava, Coppi dissera, que entregava à condenação cada um de seus inimigos e antagonistas, enquanto ele mesmo era imaculado, ele bem poderia lamentar, poderia afundar em impotência, em vista de todas estas dores, que os outros sofreram, ou que causaram, ou também do próprio sofrer, porém nunca ocorreu-lhe o pensamento de que também ele, através de um hesitar, uma omissão, um calar-se, um negar, tornara-se culpa aos olhos de um outro alguém, ele que atravessara o Mal e sabia, enquanto se mantinha firma na mão do espírito protetor [Virgilius], da consciência artística, nada poderia molestá-lo. Não é isto também, Coppi perguntara, uma arrogância, diante da qual devemos nos resguardar na Arte?, e Heilmann respondera, em seguida, que esta insensibilidade talvez fosse igual a que conhecíamos no sonho e que isto para nós em geral antes de tudo possível suportar diante do que aparecia. Se as feras realmente golpeassem, se a fatalidade ao redor se realizasse tal como se ameaçava, ele teria nada mais além a declarar. O martírio do sonho e da poesia, Heilmann dissera, seja a entrega a uma situação, da qual não há saída, tudo o que nos aconteceria, como se isso fosse real, apenas continua o sonho até não ser mais suportável e acordarmos, assim como se liberta na poesia através da transmissão em palavras. A anestesia também fazia parte disso ao extremo, em posição referente a Arte, então sem cuja ajuda seríamos subjugados ou pela compaixão diante dos sofrimentos alheios ou pela consciência da própria miséria e poderia nosso calar-se nosso imobilizar-se de terror não converter-se em alguma agressividade, que é necessária para remover as causas do pesadelo. Igualmente era a claríssima radiografia do encontro decisivo entre a morte a sobrevivência a encontrar em muitas imagens. Enquanto eu ainda trabalhava no setor de montagem de centrífugas-separadoras, houvera um período no qual vivíamos com os sonhos de Piero della Francesca. Aqui não se tratava de um livro, que fora encadernado em algum lugar e poderia ser algum opcional, a se mostrar livremente em suas permanentes peculiaridades, antes ao contrário era uma série de fragmentos, que apenas deixavam uma ideia de totalidade, da qual os trechos faziam parte, e os que eram preenchidos por igual expectativa, que a cada olhada despertava o desejo de um encontro com as reais dimensões dos afrescos em Arezzo. Sem-sombras, em um recinto, sem profundidade, estavam as imagens, com suas armas, cavalos de guerra e bandeiras, encaixados uns nos outros, do que distintos do mesmo modo que as anteriores, e cada detalhe, seja a corrente de uma atiradeira, uma fivela, uma dobradiça, um penacho de elmo, o olho de um soldado ou cavalo, era de igual valor, à nenhuma outra regra eram sujeitados do que aquela imposta pelos planos de composição. As consonâncias do branco-cinzento, cinzento-escuro e sombra dos cavalos, as tonalidades rubras, violetas, cinzentas, verdes e azuis das peças de roupa, o vermelho das manchas de sangue, o brilho das espadas e armaduras, as ferraduras de cobre em couros embotados, a visão em espiral em volta de um curso d'água cristalino, reluzente-espelhado, com cisnes, a relva transparente destacada no reboco de cal e moita na areia branca da margem, a geométrica muralha ao redor de uma cidade, o azul-esverdeado do céu, que se percebia peculiar quanto ao solo, plano e ileso, que tudo numa olhada, que evitava toda e qualquer emoção, na monumental eficácia de um consecutivo deslocar de equilibradas formas. Coppi achou este olhar frio, incomunicável, o caráter definitivo do representado/ descrito [...]



[…]


.
mais sobre Dante, Inferno
http://pt.wikipedia.org/wiki/Dante_Alighieri
http://pt.wikipedia.org/wiki/Divina_Comédia
.
.
Pietro della Francesca
http://pt.wikipedia.org/wiki/Piero_della_Francesca
http://www.ibiblio.org/wm/paint/auth/piero/



.

LdeM


.

.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Vol. I - bloco 6 (2/2)









[...]



Com muitos colegas estudantes nós concordávamos que estas pinturas que queriam confundir-nos quanto ao antitético [das Antithetische], com tudo que poderia ser dito em defesa delas, pouco tinham em comum com nosso interesse. Nós queríamos, nós mesmos, identificar o que para nós era dito ou o que tinha sido superado, o que estava à serviço da Demagogia ou o que podia ser útil às nossas tentativas de descoberta. Pintores, poetas, filósofos informavam sobre os confrontos e crises, as opressões e recomeços de nosso tempo. Na transição de um Estilo [Stilart] a outro, numa súbita libertação da emoção, do gesto, da cor, deixava reconhecer mudanças sociais, porém sempre era na diversidade de espelhamentos, das concentrações visuais, a se encontrar uma unidade, todas davam uns aos outros nutrição, perguntava, respondia um ao outro, e nada era assim tão remoto que não fosse compreensível. A reflexão surgia, se não por dependência do artista quanto a nobreza e ao clero, por toda uma necessidade, o desejo de obedecer ao mandante, dava ao trabalho deles grande segurança e capacidade quanto a posteridade, pois que eles se mantinham por si mesmos e eram responsáveis apenas por si mesmos. A lenta e calma realização da Obra dentro de uma sequência assegurada pela Tradição foi substituída pela exigência de originalidade, o que era novo não foi atribuído ao completo saber artesanal, mas sim ao Gênio, e este impulso para a peculiaridade, para a dedicação ao individual, levou ao isolamento, ao se meditar a predominância dos sofrimentos pessoais, até um excesso e, finalmente, o desafio da Arte. Com as gravuras de Dürer, do filho pródigo e da Melancolia, foi claramente a separação marcada entre a Arte hierárquica e aquela que se colocava e plenamente si só tinha que encontrar a escolha deles [dos artistas]. Nós discutíamos se por isso, porém, não seria legítimo, quanto a Arte, com pretensão de exclusividade, a impor uma linha-diretiva, e se tal determinação de uma definitiva função novamente poderia provocar uma persuasão, uma consequência. Porém um estilo não se deixava coagir, ele devia se desenvolver de modo orgânico. Isso pertencia ao período no qual vivíamos, que tudo o que era anterior, antes de tudo o que podíamos vir a conhecer, se tornava uma mistura cultural [Schmelztiegel; melting pot], quando o estilo da nossa época devia ser um constante pesquisar e rejeitar. E, perguntou a mãe de Coppi, como podia ser possível ao artista de outrora produzir sob a permanência dos tiranos. Por que eles não desvelavam a proporção da opressão e não questionavam as relações de poder, respondia Coppi, eles expressavam o que eles consideravam certo. O artista esclarecido de hoje em dia, que se colocava às ordens da ditadura, podia apenas fingir e enganar a si mesmo. Os monumentos do Fascismo, baseados em modelos gregos e romanos, expressavam nada além de um engessado vazio. Por isso, disse Heilmann, os representantes da verdade vivem no exílio ou na prisão ou, se eles ousam revelar suas opiniões aos mandatários, eles pagam sua sinceridade com a morte. Prisão e tortura, proibição de trabalho, fuga, exílio e fogueiras, ele disse, pertenciam ao destino do artista, desde que ele começou a se expressar livremente diante dos superiores. A Arte em sua totalidade, ele continuava, a literatura no total está disponível para nós sob a proteção de uma deusa, Mnemosyne, que ainda podemos aceitar. Ela, a mãe da Arte, chama-se Memória. Ela protege o que se insere no desempenho geral de nossa própria percepção. Ela sussurra para nós o que as nossas emoções exigem. Quem se atreve a criar este bem acumulado, até se castigar, só nos prejudica ao condenar nossas capacidades de distinção. Às vezes considero os historiadores de Arte bem antipáticos, eles que, com dedo levantado, esquecem a ambiguidade de cada singular obra [de Arte], pois aqueles que pretendem coações a partir de análises políticas nada sabem sobre a essência da Arte. Com seus roubos de quadros, suas queimas de livros, seus ataques contra as opiniões não-aceitáveis eles se apresentam semelhantes aqueles da Inquisição. Sem meios termos a Ideologia irrompia numa área que até poderia ser unida a ela, mas que [a Arte] devia se fechar se ela [a Ideologia] exigia subordinação. Marx e Engels sabiam disso, e também Lênin nunca se aproveitou da posição dele para impor seus pontos de vista sobre a Arte. Eles eram, no sentido que do que eles conceituavam Beleza, uns tradicionalistas. A compreensão que eles tinham de Arte era originada a partir de escolas burguesas. Porém eles percebiam os valores a partir das obras que se relacionavam com o progresso social, e que aplainava o caminho da Arte na propriedade em comum. Eram, antes de tudo, os mecanismos de opressão esmagados através da Revolução, mas a Arte não apenas ficaria intacta, mas sim, com sua harmonia e grandeza, em geral, antes de tudo, poderia trazer plena importância. Eles nada defendiam de revoluções ao modo blanquista, proudhoniano, bakuniano, e assim eram contra o radicalismo extremo, a retórica vanguardista, assim eles preferiam os inquietos espíritos dos clássicos consagrados, tais como Hölderlin, Novalis, Kleist ou Büchner, os épicos franceses eram, para eles, mais preferidos que Rimbaud, Lautréamont, Verlaine, Baudelaire, enquanto eles permaneciam ao lado das sinfonias melodiosas, e a música atonal devia ser um sofrimento para eles. Lênin considerava as obras de pinturas contemporâneas como uma afronta à natureza, ele se irritava quanto a isso que seu não sem distúrbios seriam atingidos através do tumulto da Revolução, porém ele queria também para a florescente Arte no Estado Proletário o simétrico e o melódico em vez da dissolução da anatomia, da confusão dos gritos, sirenes de fábricas e turbinas, assim devia ser sua pretensão sobre o partidarismo, porém a trazer uma face, que cada artista haveria de reinventar. O que ele, enquanto autoridade, entendia sob partidarismo era, de modo ético, o que concedia da Arte enquanto uma vitalidade, porém que junto a ele havia sido generoso, haveria de ser com seu sucessor [Stálin] um tanto baixo e mesquinho, onde o padronizado venceria sobre a espontaneidade, o metódico sobre o que se desenvolvia livremente. Quando agora, ao fazermos perguntas durante as discussões, os mestres professores recomendavam o estudo da Poesia e da Arte dos séculos passados, quando eles elogiavam Balzac, Stendhal e Goethe, Rembrandt, Bach e Shakespeare pela maturidade e conhecimento humano, pela prudência e cosmovisões [perspectivas de mundo, Weltperspektiven], quando eles viam exemplificados nos patriarcas e senhores feudais, nos aristocratas, damas da côrte e reis, os conflitos atemporais de modo humanista, por que não poderiam as obras de contempladores burgueses-tardios e experimentadores mais informativos despertar o nosso interesse? Não tinham Marx, Engels, Luxemburg, Lênin se inspirado nos pensamentos que manifestações culturais nem sempre eram devidas às condições materiais da época, mas sim frequentemente se apresentavam em contraste a elas, que os artistas com astúcia, desafio e ironia rompiam as limitações e condições das relações de produção e, com novos conhecimentos, contribuíam para a mudança de consciência. A Arte possuía também, junto a ele, um determinado caráter de classe, uma qualidade, com a qual eram considerados os processos sociais, econômicos e políticos, que determinavam a nossa vida, pois a Arte se encontrava frequentemente num limiar, a partir do qual o ser social seria transformado, e mesmo esta qualidade era bem o que fazia confusas as Ideologias. Elas não gostariam de seguir sugestões, enquanto a Arte seria uma constante força disponível em toda parte a permitir efetivar uma renovação, enquanto ao contrário elas [as Ideologias] exigiam dos meios artísticos o mesmo disciplinamento, que para eles, os políticos, era necessário. Quando eles ficavam tutelando, interferindo e disciplinando, era de certo modo difícil de criticar, pois sempre se diziam ligados às melhores intenções. A Arte socialista devia ser purificada de toda a brutalização nos negócios culturais capitalistas, e eliminar em toda medida, a glorificação da guerra, do poderio sádico, do racismo, e devia ser aceito apenas o que foi por complexa avaliação de onde ficava o limite entre o combate da Reação e a liberdade de expressão. Nós não concordávamos com o ponto de vista de que era o resto do preço que se devia ser pago pela liberdade de escolha, nós condenávamos o lixo que se despejava diariamente a partir das cloacas da mídia de massa sobre a população, que porém pertencia à Literatura, às Artes plásticas, e não devia experimentar qualquer direcionamento. Acontecia que o nosso programa educacional não era apenas contrário aos obstáculos da sociedade de classes, mas também em conflito com o princípio de uma visão cultural socialista, que sancionava os mestres do passado e excomungava os pioneiros do século vinte. Nós insistíamos em Joyce, Kafka, Schönberg e Stravinski, Klee e Picasso pertenciam à mesma fileira na qual se encontrava Dante, autor de Inferno, obra com a qual nos ocupávamos desde algum tempo.






[pausa]







em breve o bloco 7...


.


links




sobre Albrecht Dürer
http://pt.wikipedia.org/wiki/Albrecht_D%C3%BCrer
.
mais sobre Hölderlin, Novalis, Kleist,Büchner
http://pt.wikipedia.org/wiki/Friedrich_H%C3%B6lderlin
http://pt.wikipedia.org/wiki/Novalis
http://pt.wikipedia.org/wiki/Kleist
http://es.wikipedia.org/wiki/Georg_B%C3%BCchner

.
mais sobre Rimbaud, Lautréamont, Verlaine, Baudelaire
http://pt.wikipedia.org/wiki/Rimbaud
http://pt.wikipedia.org/wiki/Conde_de_Lautr%C3%A9amont
http://pt.wikipedia.org/wiki/Paul_Verlaine
http://pt.wikipedia.org/wiki/Baudelaire
.

mais sobre Balzac, Stendhal, Goethe,
http://pt.wikipedia.org/wiki/Balzac
http://pt.wikipedia.org/wiki/Stendhal
http://pt.wikipedia.org/wiki/Goethe

.
mais sobre Rembrandt, Bach, Shakespeare
http://pt.wikipedia.org/wiki/Rembrandt
http://pt.wikipedia.org/wiki/Bach
http://pt.wikipedia.org/wiki/Shakespeare

.
mais sobre Joyce, Kafka, Schönberg
http://pt.wikipedia.org/wiki/James_Joyce
http://pt.wikipedia.org/wiki/Kafka
http://pt.wikipedia.org/wiki/Sch%C3%B6nberg
.
mais sobre Stravinski, Klee e Picasso
http://pt.wikipedia.org/wiki/Stravinsky
http://pt.wikipedia.org/wiki/Paul_Klee
http://pt.wikipedia.org/wiki/Picasso

.
mais sobre Dante, Inferno
http://pt.wikipedia.org/wiki/Dante_Alighieri
http://pt.wikipedia.org/wiki/Divina_Com%C3%A9dia


.

LdeM


.

.

sábado, 16 de abril de 2011

Volume I - bloco 6 (1:2)





Estética da Resistência



Peter Weiss




bl. 6


.


Somente dois mil anos após Aristonikos foi bem-sucedida a Revolução. O líder da revolta de Pérgamo queria nomear Heliopoliten [cidade do sol] o seu novo Estado, de acordo com o sol, o símbolo da justiça. Mas o que aconteceu foram as correntes de escravidão ou valas-comuns. Aristonikos foi lançado num fundo de navio de um triremo e conduzido para Roma. Seu sonho de um movimento de independência findou no Fórum, onde ele, preso num bloco, foi observado com desdém e cuspido. Enquanto ele morria miseravelmente, ele via ao seu redor os suntuosos templos dos dominadores. Dois mil anos de escravidão se passaram, através dos estágios antigo, feudal e burguês, a História tinha, como se diz, acumulado camada sobre camada, a alcançar progresso através da constante opressão das massas populares, cada melhoria jazia arruinada por uma eclosão de desespero, porém o sistema de dominação permanecia o mesmo, o avanço dos servos, dos escravizados, dos assalariados eram sempre combatido com novas armas, e quanto maior era o ímpeto da legítima defesa, tanto mais completos foram os golpes-de-extermínio. Por dois mil anos se alongou o discurso daqueles que subiram ao poder, expulsando os antecessores, e se instalando em altas posições, até que os próximos chegassem, impacientes, audaciosos, e junto a este contínuo movimento ficavam aqueles ao fundo, aos quais era apenas dito que o tempo deles ainda não havia amadurecido. Ainda não suficientemente forte, nítido, assim se diz, o antagonismo na sociedade, a Revolta insuficientemente organizada, tão pouco esclarecido o povo, demasiadamente marcadas por miséria eram as pessoas das posições mais baixas, como que elas estivessem em condições de exprimir pensamentos de reversão, como que pudessem atingir a Revolução. A História era dada de cima para baixo, assim descrevia de modo convincente que cada revolta podia ser sufocada, e igualmente e evidentemente trocavam-se os que lucram. Tudo se processava por princípios inalteráveis, então eles, que nos davam a imagem do mundo, estavam sempre ao lado daqueles que determinavam as regras do mundo. Os adversários desde o início, para eles a História era uma singular sucessão de horror e clamor, apenas chegavam, sob todas as oligarquias, não até a palavra, e desde rolos de papiros até os ressoantes aparelhos de rádio a verdade era sufocada pela Demagogia. Se tivessem os escribas, aqueles mais instruídos, se unido a classe dos trabalhadores, então as visões de uma vida em igualdade não deveriam esperar até o nosso século para se concretizarem, porém o espírito, a mentalidade, disse Coppi, era agora mesmo inseparável das finanças, e hoje ainda apoderar-se apenas do individual da inteligência solta e lançada para nós. Os escultores na fortaleza, ele queria dizer, estavam de acordo com a supressão das desordens nas vielas, senão eles não teriam estado em condições de conceder tal grandiosidade e acabamento aos frisos. A imagem harmônica dos deuses, com um aspecto de tranquilidade e moderação, que pertencia ao ideal deles. Tivessem ficado na descrição clara dos conflitos sociais dos impuros e pecadores, eles não poderiam continuar o trabalho [de escultura]. O que, contudo, dos movimentos humanos era acolhido no trabalho deles, até de modo não-intencional, graças à habilidade profissional deles, a qual pertencia o observar, o reproduzir de experiências concretas. Antes de tudo devido a consciência das verdadeiras relações de poder geraria a possibilidade de se recusar aos desejos dos clientes. Num tal ritmo eles adiavam, quando eles se resguardavam numa autonomia e isolamento da Arte deles. Eles continuavam fazendo dedicatórias aos príncipes e prelados, aos mecenas especulativos, e carregavam a própria culpa com particularidades afetivas e bem assinaladas, que eles desde fora peneiravam através do filtro dos seus sentidos. O apoio que eles davam acumulava dinheiro, que era a garantia para que se pudesse originar altos desempenhos, pois onde dominava a carência era não pensar em incentivo da Arte, quanto mais inescrupuloso o uso da força, tanto mais profunda a contemplação, quanto mais ampla a espoliação, tanto mais relevante a ornamentação artística. Na posição deles entre as quais, sob as quais viviam, sob os soberanos, cujo poder eles aceitavam, os artistas dedicavam-se ao jogo da materialização [do domínio]. Apenas a partir da representação, que disso eles completavam, com um valor independente, podia se esclarecer a dedicação ao trabalho, a falta de fadiga, enquanto ao redor se desentranhava o Terror, enquanto se repensava a partir de campanhas espontâneas e sem-regras, e de bem-funcionantes máquinas de guerra, enquanto os servos-carrascos aperfeiçoavam suas torturas, os encarceramentos se procediam em série e os mercados de escravos se transformavam em imensos campos de punição, em penitenciárias, nas quais havia a privação de direitos e era abolida a expectativa de libertação. As revoluções francesas fizeram as estruturas oscilarem, e muitos descobriram sua filiação ao elemento proletário, e por sua vez esta percepção fora forçada pelas lutas nas ruas. Porém o que se fazia necessário a isso, disse a mãe de Coppi, para converter o conhecimento em ação. Dois mil anos foram necessários para que nós encontrássemos um esclarecimento científico, porque nós sempre mais próximos das revoltas e rebeliões, tinham sido úteis enquanto passos de uma marcha, porque nunca tivemos sucesso em construir nosso próprio poder. Através de uma olhada em nossa própria história podia isso às vezes se destacar, enquanto sejamos nós os perdedores, enquanto não se modificaram os poderios, as coerções, que se confrontam contra nós, porém o Outubro [de 1917, a Segunda Revolução Russa, ou Revolução Bolchevique] era então a prova do fato de tantos ataques, afinal ter se acumulado uma força que tinha mais peso, impacto, mais do que tudo que nos tinha outrora aprisionado. Nas espiraladas formas do crescimento nós nos vimos às vezes na vizinhança imediata dos derrotados desde os séculos passados, e entendíamos o furor e a letargia deles, porém então era o momento para, ao contrário do desespero, surgir uma nova ação, e nós estávamos ainda próximos aos servos e escravos, e assim nos considerávamos, porém agora numa época na qual nossos objetivos começavam a se realizar. Nós agora nos levantávamos não em grupos, mas enquanto classe, que além disso tínhamos conhecimento do passado não apenas das misérias que constrangeram as gerações anteriores, mas ao contrário também sabíamos da contínua opressão nos países subdesenvolvidos, o que se fazia consciente às colônias. O jugo havia pesado igualmente em todo lugar, não apenas se resumia a um país, mas ao contrário uma responsabilidade que todos carregávamos juntos, numa consciência de solidariedade, a desenvolver o Internacionalismo. Talvez até fizesse um efeito paradoxal, se mencionar a nossa situação, em vista de milhões de trabalhadores em nosso país, que se deixavam desviar das tarefas de sua própria classe. Desde o início também haviam no Socialismo as desuniões e rivalidades, a intolerância e a arrogância, as pessoas, que queriam construir o novo, elas ainda estavam embaraçadas ao que era antigo, cada uma carregava pesado o que herdavam, assim tudo que era vindouro devia ainda ser incompleto, podia-se decifrar propostas apenas a partir de alguns vislumbres. Cursos de instrução política não eram mais realizados, nós podíamos apenas contar com alguns exemplares de impressos ilegais sigilosamente distribuídos ter um parecer sobre a posição, de acordo com a nossa própria avaliação, que nos parecia correta. E assim como se compunha nossa decisão política de fragmentos, dissonâncias, hipóteses, resoluções e lemas, carregados de uma convicção, que vinha de nossas próprias experiências de vida, assim era também a Arte não trazida ao conceito, sem que nós ajuntássemos suas oscilações, rupturas e oposições. E vencido pelos contraditórios, restava apenas como um coto inanimado. Desde o início a expressão da Arte possuía altos e baixos, pois pertenciam a cada época, a mostrar tanto fase dinâmica quanto estática, a expandir em espontaneidade e regressão, em originalidade e imitação, a qualidade de uma estilística raramente a colocar-se contra um algo diferente, o que foi denominado primitivo em relação às esculturas de pedra paleolíticas e as formas corpóreas riscadas na rocha, os monumentos da Ilha da Páscoa, das máscaras africanas e indianas, era assim mais seguro que a Arte atual se mostrasse modelar e nas outras sempre a considerar a força simbólica, sendo as pinturas de cavernas de Altamira e Lascaux com algo mais de Magia, o que foi substituída nas obras expressionistas pelo (estilo) decorativo, os afrescos de Creta, com suas leves tonalidades arejadas, seus contornos desfeitos, eram bem semelhantes a noção de Natureza dos Impressionistas, as estampas floridas de Knossos continham já a art nouveau [Jugendstil], os deslocamentos de aspecto [ou perspectiva] nos relevos egípcios preparavam o Cubismo, enquanto o Surrealismo atualizava as figuras babilônicas e astecas, as esculturas dos Hindus e do Khmer ou formas sumérias e coptas irrompiam na Arte escultural dos modernos. Antiguidade, Idade Média foram denominações para as gavetas categóricas dos teóricos, desviando-se da realidade, ao dizer que tudo na Arte era novo e atual. Desde antes a Arte tinha concebido o Realístico e o Abstrato, o Ritual e o Fantástico, numa época a claridade era alcançada através da superfície plana, para outros se usava o efeito de fundo, a perspectiva central não foi julgada como uma melhoria, mas sim apenas uma expressão alterado do que é ilusório. Sempre pertenceu à Arte o que é conveniente e o que é arbitrário, o que era determinado e o salto até o que era surpreendente, inesperado. Também a História da Arte parecia uma espiral, no decurso da qual sempre nos encontrávamos com o antigo, e todos os elementos constantemente víamos de novo alterados e variados, e quando para nós resultava numa mudança significativa, assim ela ficava nisso, que nós tínhamos redescoberto o valor inicial da Arte, pois ela era, desde que se concedia um pensamento, propriedade de todos, aumentada com os nossos impulsões e reflexões. Tampouco como nós aceitávamos a representação de uma Arte exclusiva, que era criada para Eruditos específicos, poderíamos nos contentar com isso, que era de conceder à classe trabalhadora sobretudo uma editada linguagem artística, uma linguagem que deveria ser fácil, compreensível, sólida e ativa. Para nós, a Arte poderia não ser suficientemente versátil e criativa. [... ]



.


Continua...


.


trad. Leonardo de Magalhaens


...
links sobre Internacionalismo http://pt.wikipedia.org/wiki/Internacional_Socialista . sobre a Arte na Ilha da Páscoa, Creta, Knossos http://pt.wikipedia.org/wiki/Arte_minóica http://pt.wikipedia.org/wiki/Ilha_de_Páscoa . sobre Impressionismo, Cubismo, Surrealismo http://pt.wikipedia.org/wiki/Impressionismo http://pt.wikipedia.org/wiki/Cubismo http://pt.wikipedia.org/wiki/Surrealismo . sobre Jugendstil http://pt.wikipedia.org/wiki/Jugendstil http://pt.wikipedia.org/wiki/Art_Nouveau . Arte Khmer, Copta, Hindu http://es.wikipedia.org/wiki/Arte_copto http://www.exoticindiaart.com/paintings/Hindu/ http://www.canstockphoto.com.br/sculture-de-khmer-arte-em-antigas-pedra-0681936.html

terça-feira, 15 de março de 2011

I / bloco 5 (2/2)





[...]


Por isso ficávamos eu e Coppi junto às imagens do primeiro grande adentrar dos trabalhadores, da vitória deles, da fundação do domínio deles, que enfrentaram sem reservas. Bem diante de nossos olhos estavam as obras, como elas tinham que ser, evidentes, naturais, correspondentes aos eventos, que não vinham mais a partir de cima, onde usualmente a atividade artística tinha seu lugar, ao contrário vinham diretamente a partir de uma série [de experiências] daqueles que tinham consumado as lutas e que queriam aqui novamente ser reconhecidas. Eles seguiam um modo de pintar que conheciam, que não reivindicava adaptação de padrões visuais, já havia os importantes, os fundamentais, no sistema educacional, enquanto que se expusessem primeiramente com novos movimentos estilísticos, para que pudessem entender as descrições dos eventos revolucionários. Um salto fora dado desde aquela época, na qual os trabalhadores se calavam, se fechavam [ensimesmados], contratados, recebiam seus soldos, até o dia em que eles erguiam as próprias ferramentas, faziam funcionar as próprias máquinas. O quadro da realidade fora deixado intacto, porém o Despotismo, que pendia sobre as antigas representações russas da vida popular, fora apagado, as figuras não mais esperavam, como se fossem condenadas, antes com orgulho, uma risada, como antes ninguém vira neles. O fato deste processo revolucionante, porém, disse Heilmann, não nos livra da questão sobre o modo como foi conservada em figura. Também junto às ações fora mesmo ponderado, ele disse, podia transmitir o que era certo e o que era falso, o que arrisca os movimentos mais próximos e o que eles validam. A prudência havia sido a característica da ação violenta. Por isso nós tínhamos de analisar como a energia, o entusiasmo das pessoas seriam transformadas no valor que correspondia ao trabalho manual artístico. Por tanto tempo, uma tal qualidade não seria observável, ficou o objeto apenas um produto secundário a partir do domínio dos procedimentos aparentes. Este tipo de Arte, respondeu Coppi, tinha rompido com todos os critérios anteriores. Eles surgiam diretamente a partir da Realidade. Talvez em antigos sistemas de domínio fossem os trapos e as correntes melhor retratadas, talvez fossem o modelo de composição, o contraste de cores, os efeitos de luz e sombra nas gravuras de prisões até tornar-se perfeição, talvez se reconhecia a partir de relato de pobreza e miséria os novos movimentos artísticos, aqui, porém, algo se expressava, que ainda nunca fora bem-sucedido, o evento no qual o trabalho se processava na própria propriedade. O Realismo nesta situação modificaria, disse Heilmann, compensaria através de uma idealização e heroização, uma atitude ressurgiria, a que teria sido superada pelos realistas da virada do século, por isso, disse ele, assumiria a legitimidade os verdadeiros acontecimentos nos quadros. Apenas com um adiamento de tema, ele acrescentava, estão aqui os pintores de pinturas e alegorias ao trabalho. Com nossa crítica usual, disse Coppi, tais quadros não alcançaria. O triunfar neles é a verdade deles. Para aqueles aos quais a construção do Socialismo é sem importância, tal Arte deve aparecer enquanto mera decoração, e a exuberância enquanto elogio vazio. Lá, porém, onde a marcha até a libertação, que ainda nós mesmos ousávamos, fora conseguida, correspondia à supervisão da Realidade. Nós nos permitíamos a avaliação sobre esta Arte, respondeu Heilmann, pela atenção que leva à admiração, que nos mostrávamos a condição dos trabalhadores. Questões artísticas podem, contudo, não serem tratadas sob razões emocionais e ideológicas. O que devia pertencer para fundamento de nossa cultura, deve suportar a prova. Estes quadros nos incentivam, disse a mãe de Coppi, tal assistência nós precisamos agora, pois que estavam muitos de nós derrotados. Porém Heilmann não abandonou suas objeções. Os quadros mostram bem os desempenhos, as realizações, disse ele, porém eles ocultam os processos contraditórios, nos quais surge o novo [a novidade]. O conteúdo deles não se deixam avaliar enquanto algo independente. Tal qual o pensar da Revolução ainda não era a Revolução, senão primeiramente exigia suas ações, a ideia dos quadros exigia mais após sua realização na forma. Forma e conteúdo aqui não combinavam. Nas gravuras dos processos revolucionários misturam-se um estilo, que é desgastado. Os pintores, que desejam ajudar os vindouras [as futuras gerações], traziam os métodos de um Naturalismo romântico, que se volta, retrocede, ao encontro da época burguesa. O Naturalismo deles, disse Coppi, destruiu tudo o que era bela paisagem aos olhares pequeno burgueses [Augenweide des Spießers], agora mesmo na acusação dele ao antigo e conhecido ele mostrava, tal qual ele se erguia sobre o anterior idílio dos lucros, da exploração. Agora também se poderia, devido a pressa, não agir para alcançar o definitivo, o essencial seja a sugestão à força, à vontade, para defender o já conquistado. Tivéssemos que posicionar em sentido moral estes quadros, e nisso também aceitar o imperfeito, até certo momento o tipo de Arte seria encontrada. Que ficava em completa concordância com a dimensão do já alcançado. O nosso estudo completo, disse Heilmann, explicávamos em vão, se nos conformamos conscientemente a uma artificialidade, a uma pose, quando nós ficamos lá, onde o progresso há tempos fora preferido. Se insinua aqui, disse ele, uma contra-revolução cultural em nosso retrato da sociedade. A hegemonia dos filistinos [Philistertum] se impõe a nós, a corroer nossas ideias, e nós nem percebemos. Ela [a Philistertum] acredita, disse ele, que isso vem daí que muitos ativistas políticos na formação do gosto [estético] deles sejam mantidos entre os plágios e substitutos. Que isso seja compreensível, comparado a uma completa ausência de temas artísticos, a mistura de sentimentalismo, pompa e ouropel na sala de estar do pequeno-burguês podia se apresentar como algo totalmente superior, e muitos, que começaram com isso, a procurar um caminho para a educação, depararam-se com estas abordagens mais próximas, e confundiram a disfarçada miséria com indício de cultura. A luta para uma Arte nossa, disse ele, deve ao mesmo tempo ser uma luta para a superação da tendência ao modo se ser pequeno-burguês. Nós precisamos apenas alcançar um rápido esboço da mão de um Van Gogh para em linhas toscas reconhecer a beleza, para a qual inutilmente se esforçam as colossais pinturas emolduradas em ouro. Eu deixaria também, ele prosseguia, ser válido o otimismo unidimensional, quando ele [o otimismo] não colocava exigência à absoluta vigência, a um predomínio, que golpeava em separado cada usual afirmação. Ele lembrava a outro, que isso tinha dado, antes de tudo à área do cinema, onde nós tínhamos recebido, no ano antes da derrota, ainda impressões que haviam sido decisivas para a formação de nossa convicção. Nos livros de Gorki, Ostrovski, Gladkov, Babel, os caráteres nunca foram um padrão, e na pintura e arquitetura eram durante anos foram projetadas para as possibilidades construtivas de Outubro, que concordavam com a essência da Revolução. Por que ocorria agora, perguntou Heilmann, a volta até antes do alcançado, por que uma Arte, que era revolucionária, foi renegada e esquecida, por que foram derrubadas as obras que emprestaram voz ao experimentar da época em que surgiram, porque a vida, que elas envolviam, se alterou desde a base, por que estas ousadas e arrebatadas alegorias do recomeço foram substituídas por pré-fabricadas, por que foi adotada uma restrita limitação da capacidade de percepção, quando um Maiakovski, Blok, Bedny, Iessienin e Bieli, um Malevich, Lissitzki, Tatlin, Vachtangov, Tairov, Eisenstein ou Vertov tinham encontrado a linguagem expressiva que era idêntica com uma nova consciência universal. O que agitava os Expressionistas, os Cubistas durante as décadas antes de Outubro [a Revolução Russa Bolchevique], disse Coppi, sucederam-se num mundo da Forma, que era apenas familiar aos estudados. Era um revolucionar da Arte, uma revolta contra as normas. O desassossego na sociedade, o poder latente, o impulso rumo a uma transformação radical foram bem expressadas, porém os trabalhadores e soldados, em dezessete de novembro, nunca tinham sabido destas metáforas artísticas. Os Dadaístas e os Futuristas em Moscou continuavam as transformações a um nível, que aos combatentes não eram familiares. A Arte devia agora então pertencer a eles. Porém o que se aproximava disso, tinha origem nos países da Europa Ocidental, de onde os representantes da Inteligência tinham recebido suas impressões, que não era propriedade deles, tornava-se para eles como algo oferecido, um bem [cultural] dos emigrantes, que fora enxertado por letrados. Isso ajudou-os pouco, quando isso significava que a Revolução das formas agora devia ser unida com a transformação revolucionária de toda a vida, o que a Vanguarda da Literatura e da Pintura até aqui estilizada, deveria permanecer incompreensível aos trabalhadores russos. Nos porões deles não se penduravam quadros, lá havia no máximo uma estampa colorida tirada de uma revista, iguais as que tínhamos. O que era Modernista, o Abstrato devia continuar privilégio daqueles que se ocupavam com problemas artísticos, daí não se formar uma Arte proletária, mesmo quando os autores pretendiam expressar a autêntica fala de um povo revolucionário. Neste momento de transição surgiu a questão sobre o que seria melhor, o que dava alimento ao intelecto mais desenvolvido, ou o que ajudaria mais ao principiante. A esta consideração pertencia a relação de contraste entre a diretriz nacional e a internacional. Tivesse a Revolução se propagado, então também a Arte conseguiria uma versatilidade revolucionária. O provisório isolamento da Revolução, a necessidade de continuar a luta sozinha, para preservar e defender a si própria, se fortificar diante do inimigo externo opressor, forçava também a Arte a uma posição na qual seguia disso que cada Obra [de arte] seria utilizada como arma social, cada declaração se adequar à imediata utilidade na defesa e produção. Assim foi tudo rejeitado, o que demonstrava um sinal de complicações, conflitos, nem o Estado soviético nem nós mesmos seríamos beneficiados com isso. Quebrado, dissolvido, fermentado, sempre a sofrer com mais elementos, igual a nossa Arte, lá os quadros não poderiam estar, lá havia nenhum lugar para contemplação subjetiva, sempre foi exigido o objetivo, o que se deixava inspeccionar, criticar, tal qual um motor, uma construção de edifício. Os trabalhadores nas siderúrgicas, nas fábricas de máquinas, nos estaleiros, nos colcozes viam-se representados nestes quadros. O ambiente deles, o processo da atividade deles, o manejo das ferramentas era corretamente reproduzido. Disso procedia [A Arte surgia a partir da Realidade]. O retratado [nos quadros] funcionava, era parte de um plano social e técnico. Esta Arte, disse Coppi, tinha lugar junto aos grupos industriais e represas, junto a eletrificação, a reforma agrária e a construção de universidades para trabalhadores. A Arte é prática, funcional, do mesmo modo que escolas e organizações políticas. À Arte se colocavam exigências práticas as quais ela não correspondia, e o que se imaginava singular, ao contrário, era o que a maioria esperava dela. E, porém, replicou Heilmann, esta Arte pode não ser o suficiente para os trabalhadores. Eles desejavam colocá-la [a Arte] ainda bem mais no centro dos acontecimentos, eles a menosprezavam porém, quando ela concedia-lhes apenas um aspecto da realidade. Ele deve perceber que temas definidos vai privá-lo da própria decisão. Junto ao sentido com que a cultura socialista foi medida, avaliada, aquele que tinha começado a ler, a estudar, que desejava se expressar, em quadros, em escritos, o que a ele era importante, até mesmo decisivo, acabou sendo impedido. Ele via situações reproduzidas exatamente em fotografias, porém em vez de proximidade com a Arte o que se estabelecia era distância, estranheza, porque o Material não está trabalhado, porque isso nada conteria enquanto formalidades. Assim exatamente como fora gravado o detalhe, isso mantinha enquanto cópia, ilusão. Desde séculos a Arte se esforçava por isso, para superar tal imitação. Por que, perguntava ele, os Impressionistas, os Cubistas e os Futuristas desmontaram então o que se apresentava os olhos, porém não para fugir do concebido, senão para o que ficava fora do alcance, impalpável, a prover uma nova estabilidade. Desde que as fotografias fizeram evidente o âmbito do Autêntico, Documentado para a nossa concepção de história, desde que a luz, que partia dos objetos, pôde ser diretamente recolhida e conservada, então a pintura mostrou-se aí menos competente para simular a Realidade através de uma ativa transferência de um determinado detalhe dimensional. Sempre a Arte nos convencera apenas quando com suas bases pintadas enchia as folhas escritas com uma vida própria. Quando uma precaução foi tomada para regular a Arte, assim apenas se confirmava o capricho que era inerente a ela. Quanto mais fortes as suas relações, maior o medo diante do perigo de seu poder explosivo. Desta noção não é de toda a suspeita de que nem tudo que se considerava enquanto exemplar, concordava com a realidade. Ele é então o senhor em toda parte, do que ele tinha conquistado, os pensantes se perguntariam, quando ele distinguia a reduzida liberdade de movimento, que a atividade artística é medida, avaliada. Desconfiado, disse ele, deve ser a ele também o ícone, que surgia em emissão de dez mil cópias sobre o completo trabalho artístico, sempre de novo apontando ao mais alto, sublime, que bigodudo e paternal [Stálin?] vigiava onisciente a totalidade. Quando os trabalhadores russos aos domingos, disse a mãe de Coppi, andavam em grupos nas exposições de quadros, nos museus, que são propriedade deles, então eles davam um olhar concentrado a própria história e também aos conflitos durante o período de combate, de desmandos hostis. O mais importante para eles é que resistiram. Nunca ela podia esquecer, ela disse, como ela, certa vez, na Casa Liebknecht, tinha visto um filme sobre a visita de camponeses coletivizados turcomenos e quirquizes na Galeria Tretyakov, como a franqueza e a lucidez nas faces, a satisfação e o assombro refletiam o ilustrado. Antes de tudo na variedade, replicou Heilmann, com que a Arte representa/retrata as experiências humanas, é reconhecer a vitalidade da terra de origem deles, e com intensidade se mostravam as restrições deles também as repressões, que prevaleciam no país [URSS]. Maiakóvski, ele disse, com seu suicídio havia antecipado o desastre que se lançara sobre o Estado soviético. Nós tínhamos sabido através de relatos e testemunhos sobre atos de sabotagem e tentativas de separação, planos de golpe e conspirações para a morte do líder do Partido. Aqueles que duas décadas antes realizaram a Revolução e fundaram o Estado soviético eram agora chamados de peste, insetos, parasitas, subhumanos. Eles, os companheiros de Lênin, queriam eliminar o Socialismo, desfazer a vida industrializada, vender grande parte do país aos Fascistas e reconduzir ao Capitalismo. Porém, com isso, indiretamente, disse Heilmann, houve uma péssima lembrança contra Lênin, então ele, com espírito crítico, com o conhecimento de futuro que sempre nos baseamos, tinha procurado colaboradores e confidentes que, quando eles então foram desmascarados enquanto criminosos, enquanto inimigos do povo, enquanto cães sarnentos, porém desde o início tiveram a intenção de trair de qualquer modo, pretendiam expor ao fracasso tudo o que fora conseguido. Por que Lênin não descobrira a gentinha, perguntou ele, que entre nós era conhecida como Guarda Bolchevique, por que ficou apenas um único restante, que devia ser digno de assumir a sucessão de Lênin? A situação quando do último ano de vida de Lênin foi diversa do momento de sua morte, disse Coppi. A força de união, que possibilitava uma luta em comum ao seu lado, partia da personalidade de Lênin, a desenvolver as meritórias qualidades deles. Ele [Lênin] via também as fraquezas deles, prevenindo sempre sobre as lutas para alcançar o poder, com desuniões, que devia ficar à espreita, onde um semelhante congregar de cabeças individualistas se ocupava com a construção de algo totalmente novo. Os Internacionalistas, que passaram muitos anos com Lênin, no exílio, que se orientavam no mundo exterior, foram golpeados juntos com aqueles que permaneceram no país, que se entrincheiraram meio ao povo. O Secretário-Geral, cuja rudeza, cuja falta de tolerância, Lênin sabia criticar, era na situação decisiva em que as Revoluções no oeste não ocorreram, lá todas as forças foram usadas para a conservação do isolado Estado socialista, tornaram-se à forma, na qual se juntava todos unidos e concentrados, quando ele tinha mantido afastados os rancores, rivalidades e divisões, que quando da morte de Lênin vieram à tona, ele que mantinha a calma e o controle, de modo modesto, a atuar com seu julgamento quando irrompia o conflito para decidir a sucessão. A História, disse Coppi, mostraria se ele era egoísta ou reservara o melhor do povo, porém, as autorizações foram transmitidas por ele desde o dia do Partido, porque ninguém parecia melhor qualificado, para assegurar a unidade do Partido num momento de perigo fatal. Devido a seu íntimo rancor, o Fascismo com sua astúcia fazia então de tudo, para mobilizar todas as forças impalpáveis contra o Estado dos trabalhadores, e isso era possível quando no país socialista se isolavam grupos, que se aproveitavam da falta de visão em comum, por isso podiam ser vencidos, ao se colocar contra a liderança, e legitimamente se fosse necessário, a eliminar todos aqueles que trabalhavam contra a obediência às diretrizes distribuídas. Acontecera assim, porém, replicou Heilmann, não apenas desde a administração estatal, a economia, os espiões e terroristas de caráter militar, envolvidos em altas traições, também muitos artistas, que ficaram famosos com suas experiências revolucionárias, foram subitamente declarados enquanto gentinha, decadentes, contaminados de elementos burgueses, e livros foram triturados, filmes destruídos, teatros fechados, alguns, como Babel, Mandelstam, Meyerhold foram presos, eram talvez logo fuzilados, liquidados. Estas palavras, disse ele, as palavras da difamação, diante das quais nós aqui, junto à morte e ao roubo, devemos tampar os ouvidos, devemos aceitar, quando eles chegam ao nosso lado, e o pesquisar artístico, devemos isso prover com representações de tabus, com sinais atávicos e irracionais e a nos permitir expressar, isso tudo seja legítimo e prático, apenas porque nos aproximávamos [também emotivamente] do país [dos trabalhadores, a dita URSS], em tais ordens que serão entregues, porque nada devia ameaçar a este país, porque ele devia ficar preservado, devia ser defendido, não apenas através de nossas ações, como também através de pensamentos contínuos. Como isso podia acontecer, perguntou ele, que tal deformação, tal desprezo se intrometesse nele, o que para nós era certeza, e como devemos criar a Arte, além disso para defendê-lo, este [o país, URSS] que é abalado por tal envenenamento. Na cozinha apertada, na qual o pai de Coppi ia e vinha, a sua sombra se encolhia mais adiante, enquanto crescia atrás, na parede junto a porta, na parede da janela, em nada diferente disso podíamos pensar do que sobre os delitos dos acusados, os quais sofreram um ano de processo, com cada detalhe sendo comprovado, porém haviam outros autores tais como Feuchtwanger, Heinrich Mann, Lukács, Rolland e Barbusse, Aragon, Brecht e Shaw davam crédito e se deixavam convencer pelas provas. Nenhuma dúvida devia surgir quanto a legitimidade dos processos, agora, pois havia sido concluído o Pacto Antikomintern entre Alemanha e Japão, pois os exércitos chineses se retiravam de Xangai, Nanking era bombardeada e Pequim (Beijing) era ameaçada, pois após a conquista da Etiópia estava iminente a adesão da Itália ao Pacto, pois os alemães e os italianos, ajudados pela política de não-intervenção da França e da Inglaterra, reforçaram a ajuda deles ao [general] Franco, e pois sempre além do Grande Reich alemão, em exigências por colônias, a expressar o impulso rumo ao leste [Drang nach Osten]. É assim, disse Heilmann, que nós somos colocados diante dos acontecimentos, que nós temos aceitar calados a intervir no que é proibido, que sozinhos em nossa curiosidade, que pertence a Dialética, subitamente devia ser suficiente para nos entregar à condenação. Justo porque nós este país [a URSS] comparávamos enquanto exemplar para o mundo, disse ele, devo me perguntar sobre o que lá acontecia, e que se antes tivesse desistido, depois de procurar uma compreensão dos contextos históricos, assim eu teria ficado no outro lado. É assunto do povo soviético, disse a mãe de Coppi, tomar posição diante e neste momento esclarecer tudo para nós. Então esperávamos que se deixasse endireitar tal país gigantesco, do tamanho de continente, com seus duzentos milhões de habitantes e que logo devia se encontrar melhor para todos após tantas privações. O que tínhamos então realizado, junto a nós, tendo deixado-os sozinhos, então quando iniciaram, temos tido paciência, em vez de iniciarmos, para que eles também eles nos exortassem. Apenas neles nos confiávamos, pois que eles estão à nossa frente. Porém, para o pai de Coppi, talvez neste momento fosse insuportável o aperto da cozinha, ele precisasse tomar ar, ele desligou a lâmpada, nós o ouvíamos se arrastar através do escuro, como se tivesse quebrado os vidros da janela que tivesse sido trancada, como se tivesse arranhado as unhas na parede, como se não houvesse janela, deixando os papéis caírem com ruído, se ele abrisse bruscamente a janela, então o frio invadiria e o cheiro da poeira úmida, e se ampliaria o nosso campo de visão rumo a algumas fachadas escuro-cinzentas, com quadrados escuros, onde sobre elas moviam-se nuvens refletidas.








fim do bl. 5





LdeM




autores russos citados

http://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%A1ximo_Gorki
http://es.wikipedia.org/wiki/Nikol%C3%A1i_Ostrovski
http://en.wikipedia.org/wiki/Fyodor_Gladkov
http://pt.wikipedia.org/wiki/Isaac_Babel

http://pt.wikipedia.org/wiki/Vladimir_Mayakovsky
http://pt.wikipedia.org/wiki/Aleksandr_Blok
http://en.wikipedia.org/wiki/Demyan_Bedny
http://pt.wikipedia.org/wiki/Serguei_Iessienin
http://pt.wikipedia.org/wiki/Andrei_Bi%C3%A9li

pintores russos

http://pt.wikipedia.org/wiki/Kazimir_Malevich
http://pt.wikipedia.org/wiki/El_Lissitzky
http://pt.wikipedia.org/wiki/Vladimir_Tatlin

nomes importantes no teatro / cinema

http://pt.wikipedia.org/wiki/Yevgeny_Vakhtangov
http://en.wikipedia.org/wiki/Alexander_Tairov
http://pt.wikipedia.org/wiki/Serguei_Eisenstein
http://pt.wikipedia.org/wiki/Dziga_Vertov

.

.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

trad. do I / bloco 5 (1/2)




I

[bl.5]

Inseparável da conivência econômica estava a supremacia do saber. À posse pertencia a avareza, e os privilegiados tentaram fazer demorado o quanto possível o caminho aos pobres até a educação. Antes que nós pudéssemos ter a visão geral nas relações dos conhecimentos essenciais produzidos, que poderiam não conservar os privilégios dos dominadores. Sempre de novo éramos repelidos, por que os nossos recursos de pensar, de combinar e concluir ainda não estavam bastante desenvolvidos. O começo de uma mudança desta situação residia no bom senso, que condenava a força principal das classes superiores contra nossa sede de conhecimento. Desde que era isso o mais importante, conquistar para nós mesmos uma instrução, alguma prática em alguma área de estudo, ao usarmos todos os meios, de astúcia e de auto-superação. Desde o início, o nosso estudar era um ato de insubordinar. Assim ajuntávamos material para a nossa tarefa e para a preparação de uma conquista (tomada de poder). Raramente por acaso, em geral porque mantínhamos o conceituar, mais próximos de algum tema, lutando sempre contra a debilidade e as perspectivas íntimas, e contra o constante argumento de que após um dia de trabalho não seríamos capazes de um esforço de auto-aprendizado. Devíamos liberar a mente ao expulsar os pensamentos entorpecidos e a monotonia, ao ter uma maior mobilidade para um novo aprender, assim aconteceu conosco, contudo, que nem o emprego assalariado conseguiu rebaixar ou fazer desprezar. Com nossa recusa ao ponto-de-vista de que nosso desempenho peculiar fosse distinto, separado tanto da problemática artística quanto científica, mas associada à vontade, a manter um trabalho que não nos pertencia. Foi quando o pai de Coppi entrou na cozinha, num terno escuro, brilhante de tanto escovado, com camisa sem colarinho, a boina ampla sobre a testa empurrada para trás, com uma pasta poída sob o braço, e ficou de pé junto a mesa, percebíamos todos, como o dia pairava sobre nós e qual lacuna devia ser superada, antes que a força da imaginação, a pressão intelectual ou o sossego meditativo fossem exigidas. Às vezes ficávamos irritados ao renunciar a leitura de um livro, a visita a uma galeria de Arte, a uma sala de concerto, a um teatro, todos associados, para nós, a suor e preocupações adicionais. Enquanto isso as tentativas de escapar à falta de expressão, às funções de nossa existência, o que encontramos foram amostras que podiam medir o emudecer superado e os passos rumo a um âmbito cultural. A nossa visão sobre uma Cultura raramente concordava com aquela de um imenso reservatório de bens, mercadorias, invenções e inspirações reprimidas. Enquanto a falta de bens nos deixa amedrontados diante do acúmulo [de Cultura], em plena reverência, até isso era claro para nós, que devíamos preencher isso [a lacuna entre carência e saber] com a nossa própria avaliação, com o conceitos que poderiam ser úteis, quando expressado acima de nossas condições de vida bem como das dificuldades e estranhezas de nosso processo de pensar. O tema era associado a Lunatscharski, Tretyakov, Trotski, cujos livros nós conhecíamos, sabíamos também devido à iniciativa dos trabalhadores capazes de escrever assim dedicados à educação, enquanto o século vinte começava, e as declarações de Marx, Engels, Lênin sobre questões culturais nós tínhamos discutido em círculos de estudos. Isto era bem instrutivo, dava inspiração, podiam indicar o futuro, porém não correspondiam à totalidade, aquela que queríamos, pois ainda manifestava o tradicional, algo não renunciado nos limites das dimensões do mundo do poder. Também nós, assim apreendíamos o progressista, moderno ao lado do que se denominava Cultura, ao ser benefício, quando reconhecíamos a grandeza e a importância de muitas obras, nós começávamos a entender como se refletiam os estratos sociais, os paradoxos e conflitos nos testemunhos culturais das épocas, porém ainda não conseguíamos com isso uma imagem, que nos incluísse, que devia expressar todos nós, era mais um acúmulo de formas e estilos emprestados. O que também sempre nós líamos no que estava pronto, porém, podíamos apenas confrontar com a nossa exclusão, e quando descobríamos os clássicos e imponentes, corríamos o perigo de afastar de nossa classe. Com a utilização de novos conceitos, novas associações nós despertávamos a desconfiança de que assim haviam sido violentados com a predominância da ideologia burguesa, que não considerava acesso aos níveis intelectuais. Nisso nós precisávamos apenas olhar nas faces deles, para ser relembrada uma marca, um sinal, que ficou oculto neles. Antes de trinta e três [1933], quando eu visitava, às vezes, o meu pai durante o intervalo do meio-dia na empresa, podia acontecer que um representante de uma associação de estudo fizesse uma palestra na cantina ou lesse poesias, enquanto era nítida para mim a impossibilidade de se estabelecer uma ligação com as regiões intelectuais. Lá sentavam-se os trabalhadores em suas latas de metal, suas garrafas térmicas, seus sanduíches enrolados em papéis gordurosos, meio surdos de tanto ruído dos metais e martelos-de-rebite, permaneciam uns vinte minutos à disposição, mas sempre a desviarem as faces do locutor, e mantinham-se graves inclinados sobre as mesas, o que não era culpa apenas da pressa, com a qual deviam comer, mas também por causa do constrangimento, porque isso era oferecido a eles com boas intenções, mas sabiam que precisam começar com o mais simples. Quando eles aplaudiam, em seguida, por alguns instantes, nas oficinas, assim faziam por cortesia, e o artista recebia algo deles, porém, eles próprios continuavam vazios, saíam de mãos vazias. Está relacionado com isso, que eu entendo logo então, que a nós o que vinha de fora ou de cima, nada podia impressionar, enquanto ficávamos retidos a cada tentativa, a oferecer-nos uma perspectiva, que podia ser penosa, não queríamos nenhum racionamento, para nós nenhum dividido trabalho-por-tarefas, ao contrário, (queríamos) o todo, e este total não devia ser o tradicional, a ser produzido primeiro. O que então precisávamos eram conselhos, explicações de âmbito político, planos de organização, e estes podiam apenas vir numa sequência própria. Assim foi que levou-nos a consideração prática a tal configuração, que se chamava Cultura e aderia às práticas das vozes à procura, com os gestos de experiências ao longo de gerações, junto aos princípios de orgulho e de dignidade. Nosso caminho para fora da repressão intelectual era um [caminho] político. Tudo o que se conseguia da aquisição de poesias, romances, pinturas, esculturas, peças musicais, filmes ou dramas, devia primeiramente ser analisado politicamente. Era um apalpar ao redor, ainda não sabíamos para que o serviria o que descobríamos, mas entendíamos apenas que devia ser conseguido por nós mesmos. O pai de Coppi retirou da pasta, que ele havia colocado sobre a mesa, junto ao papel amarrotado, garrafa, dois tabletes de manteiga, tudo lavado na bacia, onde desnudado, da cintura para cima, o pai de Coppi esfregava o rosto e pescoço, para depois vestir um casaco de lã, com fileiras de cabeça de cervos bordadas, e novamente falávamos de coisas, que mantínhamos junto a nós, para nos ajudar na compreensão, objetivo de nossos esforços. À tarde meus braços têm dois metros, disse o pai de Coppi, a arrastar as mãos ao chão. Nesta imagem esboçava-se tudo o que crescemos ao achegarmos até a Literatura e a Arte. Na fábrica, junto a rampa de carregamento, o pai de Coppi, passava oito horas, a empurrar, puxar e carregar caixas, onde seguiam empacotados os componentes de peças de artilharia, de canhões, enquanto a mãe de Coppi tinha produzido, nas oficinas da Telefunken, peças de equipamento para manobras de aviões de guerra. Cada peça entregue, cada embalagem era acompanhada por um controlador, que registrava o ritmo dos trabalhadores, a responsabilidade de cada um. Um parafuso afrouxado, alguns grãozinhos de areia na engrenagem, um fio enrolado, falho ou a faltar, estes eram coisas concretas, que competiam com as leituras, a contemplação de pinturas. Perguntávamos se os temas dos livros que líamos podiam se transformar em coisas práticas, em nossas experiências, se eles descreviam pessoas que viviam próximas de nós, se mostravam atitude, e ofereciam tentativas de solução. Haviam obras que não tinham relação alguma com os nossos padrões [de vida], e que, exatamente por serem ignorados, despertavam o nosso interesse. Geralmente examinávamos texto ou imagem, sejam lançados em revista ou expostos em museus, se poderiam ser úteis na luta política, e aceitos enquanto tomando partido [situando-se na luta]. Então novamente abríamos outra [obra], onde não se reconhecia imediata eficácia política, mas interessante, pois parecia ter outras importantes qualidades. Eram livros e quadros deste tipo, além disso eram considerados, pelo novo soberano ditador [o Führer], como obras degeneradas, sendo então retiradas da coleção pública,o que ainda mais fortalecia a nossa vontade de incluí-las no registro dos atos de sabotagem e manifestações revolucionárias. O Surrealismo logo tinha nos impressionado, quando Hodann, no salão Haeckel, terminava a sessão de numerosas perguntas sobre a origem das Neuroses, Depressões, Obsessões, atentos fazíamos conexões entre condições sociais e motivos das doenças, dos impulsos oníricos [Traumimpulsen], e cujos efeitos se esclareciam na Arte, que seguia um solto fluxo de inspiração. Um tal modo de expressão que ignorava a lógica e aceitava coisas estranhas, alarmantes, rumo às causas do próprio comportamento, devia corresponder a nossa própria busca por auto-conhecimento. Também éramos, sim, suspeitos diante do determinado, do estabelecido, e víamos sob a capa das legalidades as manipulações, às quais muitos de nós sucumbiram. Também o Dadaísmo mostrava algo de nossas tendências, ele tinha vomitado nas delicadas salas-de-estar, ele tinha derrubado os bustos de gesso de seus pedestais e rasgado as grinaldas do auto-elogio burguês, e com isso concordávamos, zombar das homenagens, fazer cômico o Sagrado, mesmo que não fosse de nosso interesse o grito a exigir a total destruição da Arte, pois era um lema para quem estava farto de Arte e Cultura, enquanto ainda queríamos manter são e salvo as instituições da cultura, ao vermos ali o disponível e suficiente para a nossa vontade de aprender. Víamos nos quadros de Max Ernst, Klee, Kandinsky, Schwitter, Dali, Magritte as dissoluções de preconceitos visuais, um meio-faiscante clarear de fermentação e putrefação, pânico e reviravolta, distinguíamos onde isso se tratava de ataques contra o desgastado e decadente, e onde seguia apenas para faltas de respeito, porém o derradeiro fim do mercado ficava à vontade. Discutíamos o antagonismo nas opiniões, que isso era, por um lado, previsto, a presença a descrever a complexidade, ruptura e confusão delas, por outro lado, relatava a decadência imparcial e objetivamente, como [faziam] Dix e Grosz, que aqui intensamente mediam e desmontavam a realidade disponível, como [fazia] Feininger, e a deixaram aquecida em chamas, como Nolde, Kokoschka ou Beckmann. Incitados pelas proibições, pelos tantos decretos, sobre o que entender por Arte, e pelas medidas de censura, que deixavam entender quais corroentes habilidades concedia o prevalecer da pintura e da literatura, estávamos sempre em busca de livros e periódicos, nos quais os testemunhos dos inovadores eram conservados, que então estavam às ocultas no trabalho ou que os pais tinham deixado. Quando nós considerávamos se a cifrada linguagem poética, os códigos visuais e símbolos mágicos seriam adequados para a descrição dos obscuros, aparentemente imprudentes acontecimentos ou se em vista do pouco-compreensível seria necessária um versão mais evidente, então depois de nós, chegava Heilmann, ao voltar da escola noturna, junto a estação de metrô Gleisdreieck, tinha lido em voz a sua tradução de “Uma Temporada no Inverno”. Está certo a ambos, pensava Heilmann, tanto o esmagar, que dilacerava o chão sob os nossos pés, quanto o esforço para estabelecer um chão firme para o exame de fatos simples. A maioria está bem distante de tais questões, disse o pai de Coppi, mesmo que eles pudessem ver em si mesmas a necessidade, as palavras de vocês voariam além deles. Seria um zunir nos ouvidos, que não seria transpassado por palavras, que vinham de um palco, dos sons das cordas e das flautas-cornetas no estrado, via-se que era impossível sentar numa cadeira dobrável com as costas doloridas. O mover-se dos braços no escuro do fraque, e o que ali diante das teclas golpeadas derramava-se de um aberto piano de cauda, seria uma tortura como a de um anel de ferro em torno da cabeça. Sempre mais deveria, antes de se levantarem com suas bocas pintadas, os gestos ambíguos, na abundância de cores que brilhava neles, meio às propriedades artísticas, primeiramente se permitir as necessidades do sono. Até a beira do suportável eles ficavam suspensos firmes entre as cintas da banca de trabalho, onde o piso de concreto, com fria dureza, golpeava os pés constantemente. Quando eles, os operários, que ficavam desde três, quatro horas em pé, disse a mãe de Coppi, desde então dolorida como se tivesse apanhado, ao se retirar, não se acomodando ao lado de um Rembrandt ou de um Rubens, ao contrário, ela puxava um cobertor sobre o rosto. Conseguir entender o que está escrito em densos volumes, rumo a um guichê, e o preencher de formulários, e o especificar dos desejos, o que significava a confissão de completa ignorância, enfim este não podia ser o discurso. Desde a fábrica de metal, desde as caldeiras do ferroviário, a conduzirem às estações-finais de ônibus, em atalhas pisados em todas as direções, com seus olhos meio fechados, mecanicamente as pernas se arrastavam no caminho de volta. Não era este o problema, como se desenvolvesse de um estilo um outro, ao contrário o que aconteceria após um dia doente se seguisse um segundo dia de debilidade, então o terceiro dia traria, junto ao reduzido apoio, a necessidade mais nua. Antes que a doença caísse sobre o saudável, mesmo que conhecimentos chegassem a ele, seu olhar tropeçaria entre as linhas, ao longos das quais seus dedos passavam, enquanto seus lábios murmuravam algo que a mentia logo novamente esqueceria. A catástrofe penetrava no cômodo, cujo aluguel não podia mais ser pago e logo o locador entrava, sem bater. O que nos elevados e admirados dramas guiava a uma catarse, já era vivenciado, às ocultas, humildemente, em seu impiedoso transplante na experiência cotidiana. O trabalho, disse a mãe de Coppi, tornava-se, após uma interrupção, ainda mais pesado. Contudo, respondeu Coppi, devíamos sempre nos perguntar sobre a nossa missão, geralmente ninguém podia nos esclarecer sobre os contextos, nos quais estamos inseridos. E podemos dizer também sobre as coisas que não eram propriamente acessíveis para nós. Para demonstrar as teorias, que talvez esclarecesse algo sobre is meios e métodos de nossa libertação, devíamos primeiro entender a ordem, na qual nos movimentávamos. Era evidente que nada tínhamos alcançado, daí ser o auto-engano bem maior do que nunca antes. O trabalho cultural que Coppi mencionou em inclusão em funcionamento com a abertura dos cursos noturnos, pois o desempenho era obtido passo a passo, quando se devia superar o cansaço, que nos queria deter. Mais que a metade dos participantes desanimou após a primeira hora. As testas golpearam as carteiras escolares, abatidas após doze horas, de forma que às sete horas da noite eram como se feitas de chumbo. O sistema educacional observava estes decaídos, os sobreviventes que se mantinham com dos dedos nos olhos, a olharem fixamente o quadro-negro flutuante, beliscavam-se no braço, rabiscavam totalmente seus cadernos, e quando nas últimas etapas da aula desanimassem mais ainda, era o bastante, para perder uma semana, por procura de moradia, procura de trabalho, por acidente ou simples desânimo, e eles eram tirados da escola. Querer falar sobre Arte, sem ouvir os inconvenientes, com os quais nos seguíamos, seria uma presunção. Cada metro até o quadro, até o livro, era um esforço, como se rastejássemos, movendo adiante, nossas pálpebras piscavam, às vezes, nestes momentos, irrompíamos em gargalhadas, que nos deixavam esquecer para onde estávamos a caminho. E que se mostrava a nós ao exame de um quadro então, era um emaranhado de fios, brilhantes fios que se concentravam numa pepita, difundia-se, se formavam áreas a partir de santidades, escuridões, e uniam-se os interruptores dos nervos oculares sobre nós em irrompente tempestade de pontinhos de luz as informações que se deixavam decodificar. Podíamos invocar para nós mesmos todas as circunstâncias na memória que nos uniam no caminho rumo à obtenção de conhecimentos, porque nos encontrávamos constantemente em estágio de preparação, porque nós às vezes não saíamos de todo do início, por que nada nos havia sido oferecido, porque o encontro com um tema literário ou artístico nunca teve auto-evidência. Apenas junto as obras do realismo socialista nós tínhamos então recolocado a questão sobre Forma e Estilo, aqui aceitamos, contudo, o conteúdo, que se distinguia fundamental de todos os outros movimentos artísticos. Nós podíamos exigir as etapas, única e apenas por causa de suas novas forças de expressão a serem aceitas. Elas vinham do século dezenove até nós, a partir de um laborioso mistério, os antecessores daqueles que de mostravam, que se erguiam apenas com esforço, libertos e orgulhosos. A imensa potência fora ainda mais nítida, aí atrás dela os escravos, os ressecados, os miseráveis assim visíveis, oprimidos ao longo de gerações contra a supremacia, que se mostrava invencível. Apenas humilhação, repressão, encarceramento havia nas pinturas dos realistas russos, porém na afinidade deles com as pessoas, que eles retratavam, na descrição da injustiça, que ocorria a eles, permaneciam logo ao lado daqueles que planejavam uma renovação. Aí estavam no quadro de Repin os puxadores de barco unidos por correias, os trabalhadores forçados de Savítski, na terra removida para a construção do dique da estrada de ferro, as crianças de Perov, que através da tempestade de neve carregavam os tonéis de água, aí estava o foguista de Jarosjenko [Yaroshenko] chamuscado por brasa vermelha, quase afundado no recluso espaço da fornalha, segurando o atiçador nas inchadas mãos grossas cheias de veias. As faces dos esfarrapados, barbudos servos, que descalços ou com sandálias gastas e botas de cano alto trilhavam através da areia da praia, eram deixados vazios de qualquer esperança. As crianças nos trenós estavam exauridas, com suas faces pálidas, apáticas diante do cansaço. Era o ano de mil oitocentos e setenta e quatro, quando os trabalhadores na estrada junto a poeirenta rampa, vigiada por soldados, suportava sobre ela as sobrecarregadas carroças. No deserto, a anulação de suas vidas, eles que nunca tinham o que aprender das revoluções na França, da Comuna [de Paris], para eles eram os tempos medievais ainda atuais. Também os cortadores de pedra [quadro] de Courbet pouco alívio trazia, porém o trabalho deles no cascalho não era mais marcado por desesperança. As roupas deles eram miseráveis, rasgadas, os movimentos porém transmitiam algo das forças das rebeliões em fevereiro e junho de quarenta e oito [1848], e foram também as revoltas reprimidas, assim parecia-se o arranque, com o qual o jovem trabalhador levantava a cesta cheia de pedras, e o pesado punho dos mais velhos para o Hammerschaft (organização paramilitar social-democrata) renovava os gestos junto a construção de barricadas, meio ao furioso conflito. Ambos voltavam-se diante do observador, que a cópia [do quadro] mostrava-os diante do fundo quase escuro, onde aí um pote quebrado cheio de provisões, algumas picaretas dispostas como se fossem armas, se eles se voltassem assim seria numa movimento cheio de ímpeto. Muito de nossa própria vida nós tínhamos encontrado em tais quadros, de modo incompleto, por alusões, como nós tínhamos visto [as cópias] em revistas e livros, em também em nossas próprias opinião e instrução. Todos, o que nós pretendíamos externar sobre estes [os quadros], poderia ser apenas esboço, rascunho. Ainda precisaríamos de décadas, para termos o conhecimento a partir de ideias aproximadas. Em geral, estando longe dos quadros originais, nós investigávamos o que se mostrava para nós enquanto sombra de uma realidade artística, aguçada em nosso olhar para o típico, o gestual, a relação entre as figuras, sobretudo, o que se deixava ler propriamente a partir de um tom cinza manchado. Os trabalhadores na Suite Doré no porto de Londres encontram-se em igual escuridão abismal, que dominava em suas ilustrações para o Inferno de Dante, eles eram, porém, não expunham o abandono do mundo, senão o estar estafado num círculo de vivos, cuja marca era agora o vapor e a fumaça, o brilho do fogo, a água fervente. Para Millet, sem que ainda conhecéssemos suas cores, era o trabalho diário um incessante, mas necessário flagelo, seus camponeses em meio a névoa, na qual se misturava o suor dos corpos com a ardente luz solar, eles cresciam com ferramentas, eles se misturavam nos montes de palha, lidavam a colheita, ficavam, iguais a um torrão de terra em pleno abafamento antes da tormenta. Porém, eles [os camponeses] não tinham posse da terra, a qual transmitir, e também nada conseguiam, a cada dia, além de suor, exaustão física e algumas moedas, que eram necessárias para o alimento e para sobreviver nos dias futuros, assim eles seguiam, porém, tudo neles era ação, o trabalho nada tinha de estranho, nem forçado para eles, eles eram aderidos a cada alavanca, quando eles pegavam firme, eles sentiam a própria persistência, nunca em seus corpos se aderia o que era sombrio, ou quebrado. Ainda enquanto seres da Natureza eles eram apresentados, enquanto criaturas eles se inclinavam profundamente, para arrancarem os talos, três mulheres numa fileira, em movimento contínuo, uma mão pronta para agarrar, a outra amparando os talos, a terceira reunindo o feixe, todas as formas de igual gravidade, igual valor, era inevitável o lento avançar delas, assim encurvado, porém ainda natural, não visto como componente de um determinado processo de produção. [quadro Des Glaneuses, As respigadoras] As revoltas do ano de quarenta e oito [1848] transmitiam-se bem em gestos de trabalhadores, colocavam a existência social deles mas ainda não em questão, eles ocupavam, algo monumental, também o total espaço da pintura, apoiados na enxada, as pás cavando o campo de lavoura, a mão amplamente oscilando ao semear, assim era, quando se conformavam, porém, ao destino deles. O próprio Millet cresceu entre eles, não morando em cabana, mas enquanto filho de camponeses ricos, ele tinha aspirado o cheiro dos grãos, tinha, igual a Hércules, vigiado as ovelhas, olhava para cima até as formações de nuvens, olhava para o outro lado aos altos penhascos, onde ele imaginava um Prometeu sempre firme, e estas amplidões mitológicas eram ainda encontradas em sua pintura. As revoluções não tinham, à primeira vista, alcançado muito, e o que alcançavam era logo destruído pelo poder da Burguesia, mas não se podia mais negar os resultados da tensão de força, do avançar, do salto, e tudo isso Millet entendera, ao observar esta energia dos proletários e reproduzi-la. Ele não era político, igual a Courbet, ele não perseguia as consequências de revoltas sociais mais amplas, ele apenas relatava o que ele tinha vivido, enquanto Realista ele descrevera a nova determinação na atitude das pessoas, ele que não podia ver os trabalhadores em posse do poder, o que era ainda utópico, porém ele representou os trabalhadores com dignidade, com a qual eles tinham combatido. Em seus quadros via-se claramente um estado intermediário, a expressão física das formas devia ser atribuída às experiências revolucionárias, porém, primeiramente fora introduzida o ritmo da auto-consciência deles, o Poder, do qual eram capazes, era apenas uma tentativa, porém enquanto ele subia de vida no salão da sociedade, enquanto ele retirou as figuras suadas, com seus feições terrosas, como se de argila, de onde tinham resistido enquanto anônimas, e via-se deslocado entre os sofisticados retratos, de ninfas e pastoras, o que ele tinha feito, o que se igualava aos interesses revolucionários. O surgir de tais figuras no meio das galerias da Burguesia era um tapa na cara dos Entendidos [Connaisseure], que achavam que estas pessoas deviam permanecer lá fora, na imundície delas, lá ao lugar ao qual pertenciam. Porém elas não mais algo a rejeitar, alarmar, quando lá permaneciam na hora dos ângelus, em devoção, numa imersão mística, que podia se acumular sobre os campos de Millet, de imediato ameaçando então os trabalhadores rurais, em tamancos grosseiros, arfando sobre as enxadas, e o semeador, escuro, tingido, sombrio a bater os pés ao longo dos torrões de terra, dificilmente um vestígio do céu, antes da aurora ele tinha iniciado a caminhada, e antes do anoitecer ele ainda não tinha terminado. Estes impressionantes gestos pertenciam a Revolução, de súbito estavam os servos e criadas nas veneráveis regiões do Academicismo, ao invadirem a tranquilidade burguesa. Os trabalhadores da colheita no quadro de Lhermitte recebiam do capataz um ganho diário, de pé, todos dignos, sem humildade, um estendia a mão para receber, um outro recontava cuidadoso as moedas, um terceiro sentava-se altivo, maciço, diante de si a enorme foice afiada. A questão salarial era aqui logo proclamada, também a questão do engano à força de trabalho. Eles não eram mais dignos do que eles recebiam nesta tarde, quando diante deles estendia-se a riqueza de grãos que pertencia a outros, porém, eles eram cinco, e o arrendeiro apenas um, e não apenas nesta proporção de forças, também no efeito da condição física deles, que se mostravam bem superiores. Os mineiros, os trabalhadores do porto nos quadros de Meunier erguiam-se da inércia, em profunda seriedade, atravessavam as forças em potência, porém, sequer erguiam a mão. Realmente era raro, durante séculos, que os trabalhadores fossem uma imagem em primeiro plano numa obra de Arte, que se mostrassem em gestos de defesa, de ataque. Porém eis que se apresentavam enquanto nova classe, que eles pareciam bem reais diante do consternado observador, numa obra artística o suficiente. Atrás deles se alinhava uma cadeia de revoltas e revoluções, e eles eram sempre novamente reprimidos, assim eles tinham cada vez mais ganhado experiência, e poderia ser que estivessem melhor preparados para o próximo ataque. Que os pintores se aproximavam deles [os trabalhadores], que eles procurassem motivos para as suas pinturas a partir do mundo do trabalho revelava que também a Arte se libertava de velhas amarras que insistiam com suas forças, que vinham do povo, forças que deviam ser articuladas, antes de tudo de novo, das quais eram capazes o pronunciar da expressão conciliatória. Os pintores entendiam esta reclamação, eles não pretendiam ainda contagiar todo o sistema, no qual viviam, porém eles denunciavam, destacavam as situações precárias, eles viam nos trabalhadores os seus clientes, eles [os pintores] protestavam em nome deles [os trabalhadores], por algum tempo eles [os pintores] se identificaram com eles [os trabalhadores], então também eles deixavam-se novamente se cativar pelas seduções das convenções. Como sempre ficou nisso o protesto que surgia do povo, primeiramente encontrava uma formação de alto nível, ali enquanto expressão autêntica não mais digna de confiança, que não precisava ser idealizada ou dramatizada, porém facilitava uma existência independente no mundo a partir de formas e cores. Apenas indiretamente as obras realistas do século passado [século 19] queriam ajudar aos trabalhadores. Enquanto as imagens deles irrompiam há tempos na esfera da Arte, eles eram, os inspiradores, ainda excluídos dela, raramente eles chegavam a ver a face, que os mestres das vidas deles tinham conservado, porém os favorecidos aprendiam, a se voltar para eles, a se ocuparem de seus problemas. Provisoriamente este era o único desenvolvimento possível. Assim como as ações básicas das Revoluções sempre recebiam a partir de cima e assim eram utilizados, assim se batiam também ideias e esperanças daqueles que queriam progredir, abaixo das reservas de cultura, onde eram submetidos. Frequentemente, por completa simpatia algo era concedido ao povo, algo que não lhe pertencia. Este ciclo, que cria uma constante afronta, uma repressão a romper de uma vez, o que se devia a nós mesmos. [...]




continua...




sobre a exposição “Arte Degenerada
promovida pelos nazistas
http://obviousmag.org/archives/2008/04/arte_degenerada.html
http://historia.abril.com.br/cultura/arte-degenerada-obras-inimigas-435433.shtml
http://www.dw-world.de/dw/article/0,,2879528,00.html

.
pintores citados
http://pt.wikipedia.org/wiki/Max_ernst
http://pt.wikipedia.org/wiki/Paul_Klee
http://pt.wikipedia.org/wiki/Kandinsky
.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Kurt_Schwitters
http://pt.wikipedia.org/wiki/Salvador_Dal%C3%AD
http://pt.wikipedia.org/wiki/Magritte
.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Otto_Dix
http://pt.wikipedia.org/wiki/Georg_Grosz
http://pt.wikipedia.org/wiki/Lyonel_Feininger
.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Emil_Nolde
http://pt.wikipedia.org/wiki/Oskar_Kokoschka
http://pt.wikipedia.org/wiki/Max_Beckmann
.
Uma Temporada no Inferno (Rimbaud, “Une Saison en Enfer”)
http://www.jornaleco.net/Rimbaud/temporada.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Une_saison_en_enfer
.
mais artistas / pintores
http://pt.wikipedia.org/wiki/Rembrandt
http://pt.wikipedia.org/wiki/Rubens
.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ilya_Yefimovich_Repin
http://es.wikipedia.org/wiki/Konstant%C3%ADn_Savitski
http://en.wikipedia.org/wiki/Vasily_Perov
http://en.wikipedia.org/wiki/Nikolai_Yaroshenko
.
mais sobre o realismo russo na pintura
http://pt.wikipedia.org/wiki/Itinerantes

.
mais pintores realistas franceses
http://pt.wikipedia.org/wiki/Gustave_Courbet
http://pt.wikipedia.org/wiki/Millet
http://pt.wikipedia.org/wiki/Honor%C3%A9_Daumier
http://es.wikipedia.org/wiki/L%C3%A9on-Augustin_Lhermitte
.
pintor belga Meurnier
http://es.wikipedia.org/wiki/Constantin_Meunier

.
videos
http://www.youtube.com/watch?v=pyVod6vNxFg
http://www.youtube.com/watch?v=XgZb9E32seo&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=JMBJr0VNoCo&feature=related

.
sobre a Hammerschaft, a organização paralimitar
social-democrata, suborganização do Reichsbanner
em
http://en.wikipedia.org/wiki/Reichsbanner

obras de Gustave Doré
http://dore.artpassions.net/
http://djelibeibi.unex.es/libros/Dore/
http://www.all-art.org/impressionism/dore1.html


LdeM

2010/2011